
Ribeirinha´
Uma velha apeia-se com os vagares da idade em Latadas, o primeiro apeadeiro. Ninguém reclama da demora, que a conversa está boa e a paisagem é demasiado urbana para ser interessante. O rio corre do lado direito sem atritos, entre as leiras e a neblina. Após um túnel breve, a grande evasão dá-se em Frechas, onde calha sair Alice Caravelas. A professora liceal, de 30 anos, advoga não só a utilidade da linha - "não tenho carro e é barato (menos 60 cêntimos do que o autocarro para Frechas) -, mas também a vertente lúdica "Já fui algumas vezes até ao Tua e quero repetir na Páscoa, antes que a linha encerre", garante, admitindo que "a barragem talvez supere a receita do turismo", mais pródigo no Verão, embora "no Inverno seja mais atractivo", assinala. "Só que não há muita divulgação", diz. E sai. Leva mais seis passageiros com ela. Após 12 quilómetros e muitas curvas e trepidações, ruminando o verde da paisagem lavrada, a automotora deixa mais seis em Ribeirinhas, estação habitada e limiar da civilização. A meia dúzia é contestatária: "No ano passado, fiz 114 viagens. Estou a viver em Mirandela e tenho aqui as fazendas. Se a linha for fechada, tenho de ir e vir de qualquer maneira", protesta Adelino Trigo, de 77 anos. É socorrido, na defesa da linha, por Acácio Amaral, aposentado da GNR aos 54 anos e viajante incansável: "Desde jovem que uso este transporte. A minha mulher vai uma vez por mês a Penafiel e ao Porto e vamos sempre neste", assegura, dando conta dos malefícios de uma barragem: "Prefiro a linha. Primeiro, a riqueza que existe, os melhores terrenos, fica tudo submerso", afiança, interrogando: "O que é que essas pessoas vão fazer depois? Vão viver de quê? Se já assim vão daqui para fora!".
Dali para fora está quase a partir a automotora, mas eis que surge, caminhando pela via, quatro elementos da Refer. Estão a fazer, explicam, o levantamento do estado da linha, visando a optimização da velocidade para o comboio andar mais depressa". Porque mais vagar é difícil, mas também imprescindível "De Ribeirinha ao Tua, o comboio circula com marcha à vista - nunca a mais de 30 Km/h, permitindo parar após identificar um obstáculo".
Santa Luzia
Munidos do contexto daquele vagar que não amacia a trepidação, os passageiros entregam-se à contemplação da Natureza. É a partir de Abrunhedo que se calam as vozes e abrem-se de espanto os olhos dos iniciados. Impressionam-se com pouco, ainda, os turistas montes penteados pelo aro acolhem vinhas, identificam-se amendoeiras ameaçando florir, salgueiros e choupos, há azenhas desnudas ladeando as águas que afeiçoam o leito xistoso. Chega-se a Abreiro e, após ter saído mais alguma, há permuta de gente - saem quatro, entram duas - sem que se vislumbre para onde irá quem fica, embora haja, logo acima, uma ponte de betão. A estação, esventrada, assinala a civilização com um grafito ridículo gritando impropérios na parede. O rio amodorra-se um pouco, ali, e acolhe, até, um pato no meio de um aluvião. Mas quanto mais penetra a automotora na via, mais o penedo se agiganta e atemoriza, granítico, e estéril. A vontade do homem, porém, engendrou bancadas no dorso da escarpa, e lá plantou oliveiras que enxameiam a encosta, até não lhe ser mais possível combater a pedra, rugosa e bruta. Mortal, aquele declive. E quase em Santa Luzia, o maquinista, ciente da natureza humana, abranda para que o povo veja a mais nova, e macabra, atracção turística o local onde se despenhou, há um ano, uma automotora, matando três pessoas. "Foi aqui", informa. "Ah, louvado seja Deus!", exclama uma mulher, piedosa, tentando fotografar uma nesga de rio lá em baixo. Garantido o postal, benze-se. Em Santa Luzia, percebe-se como a engenharia, por vezes, é perversa: vêem-se as amarrações de acesso, por teleférico, do povo de Amieiro, aldeia pendurada na outra encosta, à estação. Mas não há teleférico.
Estação do Tua
A automotora entra no destino final como um carrossel a linha, sinuosa, afaga os flancos do maciço, a trepidação aterroriza as almas sensíveis que, ainda assim, mantém a vista presa, obstinada, à paisagem em que avulta o voo planado de uma ave de rapina - o único apontamento de suavidade. E, quatro túneis depois, surge o oásis ferroviário da estação do Tua, onde jaz a carcaça de uma automotora vermelha anunciando o destino que espera, talvez, a linha inteira: a podridão. "Acho uma pena, por esta linha, e esta paisagem, que é uma mais valia enorme. Tem é de ser mais divulgada, porque o bilhete não é nada caro", diz o madeirense José Cristiano Branco, professor de Educação Física. A mulher explica a origem da viagem insólita "Vi imagens na televisão pelos piores motivos - o acidente - e, há dias, vimo-las outra vez, a propósito da reabertura da linha. Como disseram que podia fechar, viemos cá antes disso". E, apesar de estar "só de passagem", não deixa de se interrogar: "E se o Douro é Património Mundial, como é possível desprezar esta linha?". Elmano Madail, Leonel de Castro, JN
6 comentários:
Este artigo fez-me lembrar o Eça de “A Cidade e as Serras”.
Claro que as serras do Eça já não são o que eram na altura.
E a linha do Tua?
Também é diferente mas mantém muito do início: - a linha estreita, os penhascos, os túneis, alguma vegetação, o rio.
Pode a linha persistir?
Pode, se for capaz, turisticamente e apenas turisticamente, de propiciar receitas que justifiquem a sua manutenção.
Mas não me venham justificá-la com meia dúzia de idosos que serve, com a professora que poupa uns cêntimos, com a ligação a Espanha.
E não me falem na modernização da linha, porque com o alargamento e com a velocidade lá se vai o interesse turístico.
Para transporte, não, definitivamente. Quem vai dar, para ir ao Porto, uma volta enorme, se tem ou vai ter auto - estrada mais rápida?
A manutenção da linha e a postergação da barragem só se justificam se a linha se mantiver mais ou menos como está, até Mirandela( o único percurso que tem interesse turístico), e se o turismo propiciar receitas consideráveis.
João Lopes de Matos
Eu acho que este comentário de Jlm é bastante redutor acerca do valor incomensurável do vale do Tua em todas as vertentes: paisagística, turística, cultural, patrimonial e, por acréscimo, económica. O que é que pode dar um paredão de cimento a prender uma montanha de água estagnada? Por favor, sejamos mais realistas.
Falando de charcos, estou a lembrar-me de alguns: em Mirandela, com um repuxo, em Coimbra,com um parque verde e uma ponte pedonal, em Abrantes,com bares. Que mania esta de arranjar charcos em frente às cidades!
Não são charcos, mas espelhos de água que muito embelezam essas localidades que por sinal são bastante habitadas. Porquê? também quer fazer um espelho de água para os milhares de habitantes do vale do Tua que moram entre a Brunheda e a Foz-Tua?
Então não chamemos charcos às albufeiras( não fui eu quem as designou assim). Usemos outros argumentos contra as barragens mas esse não.
JLM
Ora... Será que o Tua, depois de encharcado vai passar a ser cidade???
N tou a ver bem o filme...
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