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segunda-feira, 21 de julho de 2008

Daqui e dali... Mário Cardoso

"Os Retornados"


Recentemente li “Os Retornados” de Júlio Magalhães. Embora tivesse vindo ainda muito criança de Angola, esta terra está muito enraizada em mim, não só pelo facto de ter lá nascido mas também porque cresci a ouvir falar dela e ainda hoje é um tema discutido e lembrado no meu núcleo familiar.
O livro retrata muito bem os momentos de angústia vividos por todos aqueles que deixaram para trás uma vida e um país cheio de cor, desenvolvimento, prosperidade, fraternidade e um sem fim de adjectivos que qualificavam estas terras (Angola e Moçambique), como magníficas. “Aterrámos” todos num país que para muitos era desconhecido e que para a maior parte iria ser difícil a construção de uma nova vida.

A opinião era unânime, Portugal era um país cinzento, atrasado em todos os níveis devido a herança pesada de um regime que “tolheu” o país. Era dos países mais atrasados da Europa. Angola “fervilhava” num ritmo de crescimento económico nunca visto. Não havia assimetrias regionais. Todas as cidades tinham um ritmo de crescimento igual quer estivessem no litoral ou no interior. Rasgavam-se novas estradas e novos troços de caminho de ferro por todo o território.
Todos os sectores estavam modernizados, o primário (agricultura), secundário, (industria) e terciário (serviços), e não pensem que este desenvolvimento era realizado à custa do trabalho escravizado. Pode sim ter sido em tempos remotos mas naquela altura a escravidão já tinha passado à história.
Ali todos trabalhavam em torno de um projecto comum: o desenvolvimento de Angola. Esse objectivo estava a ser alcançado, não fosse a guerra, este país seria hoje, sem dúvida, um dos mais desenvolvidos do mundo. Moçambique não era tão rica como Angola, mas também era uma colónia próspera e em crescimento.
Compreendo que estas terras tinham muitos recursos e que por isso se justificava a sua prosperidade. Mas há aqui um facto que merece ser discutido.

Angola, Moçambique e Macau, eram governados por portugueses. Como se viu e isso era um facto, o modelo económico era eficaz e reflectia-se, como já referi no desenvolvimento e progresso das ex colónias. Nessa altura Portugal Continental vivia atrasado em relação aos outros países europeus vinte ou trinta anos.

Hoje infelizmente esse problema persiste. Continuamos na cauda da Europa. No relatório de 2003 sobre o desenvolvimento humano das Nações Unidas ocupávamos a 23ª posição, em 2005 a 27ª e em 2008 ocupamos a 28ª. Temos portanto vindo a decrescer em vez de progredir, e isso é muito mau. Na minha opinião, os principais problemas são a reduzida produtividade da Economia portuguesa e as desigualdades internas de distribuição de rendimento. Já entraram no nosso país milhões de euros de ajudas económicas e não conseguimos sair da “cepa torta”. Os portugueses que estão no Luxemburgo produzem mais 177% que em Portugal. Os que estão na Suiça, Alemanha, França, Canadá, EUA, e por aí fora também têm uma média de produção superior em relação aos portugueses que aqui trabalham. Pergunto então, porquê? Se nas ex colónias fomos bem sucedidos, nos países para onde emigramos também o somos, porque é que aqui neste pequeno país à beira-mar plantado temos tantas dificuldades em prosperar? Será que nos tornamos dependentes dos subsídios? Porque é que aqui não conseguimos ser competitivos nem empreendedores? Tivemos azar com todos os políticos que nos governaram desde o 25 de Abril até aos nossos dias? Acredito que somos capazes de fazer mais e melhor pelo nosso país, porque temos provas dadas. Temos que identificar quais os problemas estruturais que nos impedem de dar o “salto” para solidificarmos a nossa economia para não estarmos tão vulneráveis ás crises internacionais.

Hoje Angola poderia ser uma das maiores potências mundiais. Portugal dificilmente poderá ser uma grande potência uma vez que temos poucos recursos, mas poderíamos inverter as estatísticas que nos colocam quase sempre em último lugar com políticas mais assertivas.

Mário Cardoso

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Daqui e dali... Mário Cardoso

CRISE ALIMENTAR MUNDIAL

A crise alimentar que se manifesta um pouco por todo o mundo está a tomar proporções demasiado perigosas para uma estabilidade a nível global.
As Nações Unidas alertaram que terão que retirar a ajuda a 100 mil crianças se não receberem 500 milhões de euros para combater o aumento do preço dos alimentos.
O director do Fundo Monetário internacional “FMI”, advertiu que se os preços dos alimentos se mantiverem elevados, não só os países em vias de desenvolvimento sofrerão consequências, como também as economias mais desenvolvidas sofrerão desequilíbrios comerciais.
Mas porque é que os preços dos alimentos duplicaram em três anos?
Esta escalada do encarecimento dos alimentos deve-se a diversos factores:
- Á subida do valor do petróleo que encarece os fertilizantes e os custos de transportes.
- Desvio das culturas agrícolas para a produção de bio combustíveis que tem tido uma procura crescente devido a nova “onda verde” que prolifera um pouco por todo o mundo.
- Forte procura dos mercados emergentes como a China e a Índia. Estes dois países quase totalizam 2 biliões de habitantes. Com o aumento da qualidade de vida a procura dos alimentos aumenta proporcionalmente…
- Alterações climatéricas que dificultam todo o processo de produção agrícola.
- A turbulência financeira que transformou as matérias-primas em activos mais apetecíveis…
A crise e a instabilidade estão instaladas.
Nos Estados Unidos a principal cadeia de hipermercados começou a restringir a venda de arroz por cliente, provocando ainda uma maior subida de preços deste produto. A China, Índia e Vietname têm limitado as exportações para salvaguardarem as reservas internas. A Tailândia também poderá limitar a venda para o estrangeiro devido á pressão dos outros países atrás referidos. A Tailândia fornece cerca de um terço das exportações mundiais. Se este facto acontecer a crise poder-se-á agravar ainda mais. O arroz é responsável pela alimentação de três mil milhões de habitantes.
A factura dos cereais nos países mais pobres pode subir 56 %. Em vários países Africanos pode atingir os 74%!!! Como poderá sobreviver a população destes países já por si tão carenciados? O elevado preço dos alimentos está a ter como consequência insurreições sociais o que já era previsível.
No Paquistão e na Tailândia as autoridades foram obrigadas a movimentar tropas para proteger plantações e quintas, alvo de pilhagens. Na Argentina também já houve conflitos. Ainda estamos no início de uma crise que era imprevisível acontecer nesta década. A 29 de Abril, o Secretário Nacional das Nações Unidas Ban Ki Moon anunciou a criação de uma célula de crise para lidar com a questão da subida dos preços dos alimentos e os consequentes problemas de fome.
Quem vai pagar esta crise são obviamente e infelizmente os mais pobres. Para muitas economias, sobretudo as Africanas, é insustentável a ajuda aos mais carenciados a médio e a longo prazo. Se ela se prolongar poderá ter consequências imprevisíveis.
Uma coisa é certa a população no planeta está a aumentar, já ultrapassamos os 6 biliões de seres humanos e a tendência é para aumentar sobretudo devido ao aumento da esperança média de vida.
Será que a terra tem recursos suficientes para alimentar tanta gente?...

Mário Cardoso

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Daqui e dali... Mário Cardoso

FOME

Temos ouvido falar ultimamente, que existe fome em Portugal. A pobreza aliada à fome, a baixos níveis de vida e exclusão social sempre existiu e infelizmente nunca nenhuma ideologia política a conseguiu erradicar de facto na prática… seja em Portugal ou no resto do mundo com excepção da Suécia e da Noruega onde os níveis de pobreza são muito baixos devido a políticas sociais muito eficazes.
Mas Portugal não é Suécia ou Dinamarca, e mesmo que tivéssemos os mesmos recursos económicos e o mesmo PIB que estes países têm, continuaria a haver muita pobreza e má gestão dos recursos…
Por todo o mundo há uma tendência generalizada do aumento do preço dos cereais em especial do trigo e do arroz, devido ao aumento galopante do preço do petróleo. Este fenómeno reflecte-se na nossa economia e sobretudo nos bolsos dos mais desfavorecidos.

Existem dois milhões de pobres em Portugal o que equivale a um terço dos portugueses. O banco alimentar contra a fome refere que um milhão de portugueses passa fome diariamente. Já são muitas as famílias para quem, há uns tempos atrás, seria impensável este cenário de dificuldade e hoje recorrem, sem alternativa, ao banco alimentar porque o seu salário não chega para pagar as contas correntes. Torna-se difícil gerir o orçamento quando os ordenados não acompanham o crescimento dos preços dos bens essenciais, dos combustíveis e do aumento constante das taxas de juro... O endividamento das pessoas “aliciadas pelos bancos” prejudicou muito a classe média, empobreceu-a posso dizer mesmo que a estrangulou… A banca é perversa e todos nós sabemos que ela não dá nem oferece nada a ninguém. Têm uma estratégia de marketing persuasiva e persistente que leva os mais incautos e impulsivos a comprar muitas vezes sem terem necessidade, não sabendo que irão ficar mais pobres ainda…
Ferias em destinos exóticos pagos em prestações baixas em que a primeira mensalidade é grátis, todos os bancos oferecem as melhores vantagens no crédito à habitação, compre hoje pague só amanhã e esse amanha pode transformar-se num dia amargo…
Sem querer, as pessoas “cegam-se” deixam-se levar pelo impulso, mas será que a culpa é só do cidadão?
Porque não emana o Governo um decreto-lei que limite o Marketing de instituições financeiras junto dos Média?
A classe média poderá vir a ser os novos pobres de amanhã. As estatísticas dizem que há 200 mil portugueses que passam fome, que são os sem abrigo, os idosos que sobrevivem com um rendimento miserável que muitas vezes não chega para pagarem os medicamentos, quanto mais para comerem. Existe também a fome envergonhada e esta não está nas estatísticas. Estes são a classe média. O Sr Primeiro Ministro, “como seria de esperar”, diz que está tudo bem…
Mas será que estamos numa verdadeira e preocupante crise? Ou será que a riqueza está toda ela mal distribuída e as receitas do estado mal investidas?
O quadro poderá não ser tão negro, porque vem aí muito investimento em obras públicas como o novo aeroporto, TGV, auto-estradas, barragens etc…
A Economista Manuela Silva diz que é necessário uma resposta séria no plano social e político. O governo tem a responsabilidade de criar um fundo de emergência social para acabar com a fome em Portugal. Penso que a resposta poderá ser então uma maior justiça social e equidade de rendimentos. Quanto à crise internacional espero que seja passageira e que os líderes do mundo evitem a especulação e deixem de ser reféns dos interesses dos grandes grupos económicos…

Mário Cardoso

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Daqui e dali... Mário Cardoso

Portugal a duas velocidades
A propósito de desertificação e do abandono do interior, lembro-me de a minha professora de História de 12º ano dizer que todos os políticos deveriam ter uma formação em história para que hoje não se cometessem os mesmos erros do passado. Nos sec. XIV, XV, XVI, não são raras as vezes que os historiadores da época falavam do abandono das terras em busca de melhores condições de vida nas cidades do litoral. As consequências são exactamente as mesmas, cidades sobrelotadas, precariedade de vida, problemas e conflitos sociais, etc, etc.
Nos nossos dias acentuam-se as diferenças entre um interior subpovoado com tendência a decrescer e o litoral da faixa que liga Setúbal a Braga hiperpovoado.
Já há muitos anos que se verifica esta tendência e também há muito tempo é de conhecimento dos vários governos que por nós passaram. Fazem-se colóquios e mais colóquios, fala-se e debate-se em programas televisivos, realizam-se palestras nos auditórios de universidades, no entanto o problema continua e nada se faz em concreto.
Compreende-se porque não se investe no interior, e são vários os factores:
-População envelhecida, pouca escolaridade e com ela associada falta de formação e mão-de-obra qualificada, maus acessos e poucas estruturas viárias, por ex. Bragança é o único distrito do país que não tem um km de auto-estrada, nem terá nos próximos anos.
É no interior que se registam os mais baixos valores de poder de compra.
Se não há investimento também não há emprego, e as pessoas procuram-no onde existe. É no litoral desenvolvido que existe mais ofertas de emprego e também maiores garantias de progressão e realização profissional. Ora, este facto tem o “reverso da medalha”, crescimento desordenado, costa litoral deteriorada, problemas sociais, poluição, aumento da criminalidade, etc.
É necessário resolver esta dicotomia e desenvolver uma maior equidade entre regiões e é ao Estado que compete ter a iniciativa de promover investimentos estruturais para o interior do país. É também competência do governo definir políticas de coesão económica, social e territorial. Também tem que definir programas de ordenamento do território.
Na minha opinião o governo deveria pôr de novo na sua agenda, a regionalização.
Uma das prioridades do QREN (quadro de referencia de estratégia nacional 2007-2013) para além da educação como foi referido, será a qualificação do território, a promoção do seu melhor ordenamento e a redução das assimetrias regionais, sendo assim o governo fica comprometido com o interior. O QREN apresenta-se como a ultima grande oportunidade para que todas as regiões atinjam as metas de desenvolvimento traçados para a União Europeia, e todos os cidadãos disponham de idênticas oportunidades independentemente do local onde se encontrem. Durão Barroso disse que Portugal vai receber mais de 21,5 mil milhões de euros até 2013. É muito dinheiro que tem de ser bem gerido…
Terá o governo alguma estratégia de desenvolvimento e planeamento do território? Eu penso que tem, mas está a fazer tudo errado como os outros tem feito até aqui. (Enfim são todos maus alunos!...) O Estado está em debandada no interior do país. Com esta política de encerramento do País, sendo claramente o interior mais prejudicado, vemos a serem canalizados para a Grande Lisboa grande parte dos Recursos, quer humanos quer financeiros. Tudo em nome de uma estratégia que visa diminuir o deficit público, mas será esta a forma mais correcta? Veremos os resultados em 2013, esperando que não continue tudo na mesma ou ainda pior, sendo este o cenário mais provável.
Em vez de termos um Portugal a duas velocidades antagónicas, deveríamos ter um país uno, equilibrado no seu ordenamento e oferta de oportunidades. Os autarcas do Interior deveriam unir-se e, em unanimidade, com uma força coesa, levantarem a voz contra uma politica que só prejudica gravemente os nossos interesses…

Mário Cardoso