quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Daqui e dali... Vitorino Almeida Ventura

E depois do Festival de Música medieval?


CAMÕES E A TENÇA

Irás ao paço. Irás pedir que a tença
seja paga na data combinada
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce

Em tua perdição se conjuraram
calúnias desamor inveja ardente
e sempre os inimigos sobejaram
a quem ousou seu ser inteiramente

E aqueles que invocaste não te viram
porque estavam curvados e dobrados
pela paciência cuja mão de cinza
tinha apagado os olhos no seu rosto

Irás ao paço irás pacientemente
pois não te pedem canto mas paciência

Este país te mata lentamente

(Sophia de Mello Breyner Andresen)


Um dia, quando falava com o ex-futuro presidente da Câmara de Carrazeda, João Lopes de Matos, percebi (até porque ele já o havia escrito) que uma de suas medidas consensuais na Chefia virtual da edilidade seria pôr termo ao Festival de Música medieval, uma vez que o povo o tinha abandonado há muito… Fiquei surpreendido porque mesmo quando o redigiu, no sentido de apurar da relação custos/benefícios para a população, tirava uma conclusão óbvia, não necessitando de realizar uma de suas projecções para o futuro do Desert(ificand)o. Mas


ainda focava na Câmara e para mim talvez se devesse direccionar as luzes para a outra metade da Organização. Assim, perguntar a Pedro Caldeira Cabral sobre o satisfatório (e não sobre a sua satisfação)… Se a realização do Festival não deveria ter objectivos mínimos: tanto no público, quanto na mudança de mentalidades. Se o amor dele pela Terra, também sua Senhora, não deveria ir além de uma espécie de tença anual tão pouco camoniana (tão longe da mísera cantada por Sophia, em Grades, 1970), acumulando para as Finanças o cachet de Organizador, Director Artístico de alguns grupos e de músico do seu próprio La Batalla, assaz omnipresente. Pergunto


se não seria mais útil, até pelos contactos que o concertista Caldeira Cabral possui, relevar mais ao interesse concelhio, em metamorfosear anualmente num festival diferente (Barroco, Romântico, Contemporâneo…) com outros organizadores, outros Directores Artísticos, outros músicos, para que o repertório se não esgotasse, levando o concelho a Outras Músicas. Mas todos eles, subordinados a objectivos mínimos: tanto no público, quanto na abertura de mentalidades. Para isso, no entanto,


teria de existir uma formação de públicos antecipada, para estar a escuta mais disponível. Como se não descobriu ainda tal vontade,


provavelmente, seria melhor abandonar todos os projectos 'estranhos' (os de música erudita) e cultivar o concelho por um gosto mais próximo do dos cidadãos. Neste contexto, avanço outra proposta alternativa, dentro dos espectáculos a que este ano assisti, apostando na qualidade da seguinte bolsa de novos valores nacionais, reduzindo imenso os custos. Tal proposta acrescentaria também o facto de ser Carrazeda a ajudar a revelá-los (e não o inverso, com meia dúzia de referências nos jornais):


Deolinda (Novo Fado); Mandrágora e Diabo a Se7e (World Music); Tiago Guillul, Clube dos Nadadores de Inverno e João Peludo e a Orquestra Sonâmbula (Pop/Rock). Meros bons exemplos


e não só da Música. Concluí estas semana, como formando, um Curso de Cultura e Pensamento Contemporâneo com Gonçalo M. Tavares e calhou de falarmos, a propósito do Corpo Dilacerado, de Leonor Keil. Ele falava nessa dançarina da companhia de Paulo Ribeiro, de um nível tão alto quanto Pina Bausch. Eu falei que a vi na Serralves, 40 horas Non Stop, fazendo sozinha todas as personagens de Noite de Reis de W. Shakespeare, e não vi apenas uma dançarina, mas uma actriz, uma cantora, sei lá. Eu sei, seccionando o corpo, respondeu-me o Gonçalo, os braços tristes, a cara alegre. Completamente em peças de um puzzle! Alguém as junte…


Vitorino Almeida Ventura


Post Scriptum: Mas estará mesmo Pedro Caldeira Cabral disposto ao próprio 'sacrifício'? Admiro muito as suas colaborações dentro da música popular e a sua obra, sobretudo, em La Batalla, como a pictórica das Escolhidas de sua esposa Graça Morais, mas além de um ou outro espectáculo e exposição efémeros, aquém dos painéis de azulejos na Biblioteca, o que dela ficou por Carrazeda? Para mim, a culpa está de não haver uma política de intervenção: cultural, pedagógica, cívica, repito — não contribuindo para a formação de públicos, melhorando o concelho, através de Cursos, Círculos de Estudos, Workshops… dirigidos a professores e alunos e outros interessados, muito antes dos espectáculos, já que a Organização do Festival, em meu entender, a isso obrigaria (ou mesmo responsabilizaria a). Assim,


tenho por mais essencial o labor de Cristiano (de cujo «currículo» faz parte, felizmente, o ser irmão de Graça Morais…), nos deixando uma Monografia, indo pelas aldeias para as deixar escritas. Dir-me-ão que fazia parte do trabalho e que foi pago a peso de ouro, mas que deixou uma marca bem maior ao concelho, na (transmissão da) cultura,


isso também (me) fica claro.

13 comentários:

Anónimo disse...

O doutor Vitorino é um bocadinho ingénuo. Tente fazer uma pesquisa e troque por miúdos, ou se calhar é melhor trocar por graúdos o amor da família Morais por Carrazeda. Quanto recebeu já Pedro Caldeira Cabral? Graça Morais? Cristiano Morais? E o que ficou dessa paixão por Carrazeda? E, já agora compare, por exemplo, com o amor de Otília Lage, desde o Volfrâmio, passando pelas Facanitas, pelo avô Sapo e por Mécia de Sena e a ajuda que a Câmara lhe deu.
Faça a experiência! Ou repita a experiência com Hélder de Carvalho ou Paulo Moura, da mesma área que a da pintora. Deixe-se de ingenuidades!
Ateia

Anónimo disse...

Desculpe, ateia, mas terá percebido o artigo de VAV? Não vai no mesmo sentido das suas dúvidas e inquietações? Pelo menos, o li assim e acho que não sou loura.
L.

Anónimo disse...

Se pagassem bem, até eu andava com uma camisola I love you carrazeda! Mas é diferente. A d.ra Tila é da Terra. Tem obrigações. A d.ra Graça Morais e família só vêm cá se lhes pagarmos e acho muito bem. O prof. Hélder de Carvalho não tem hipóteses enquanto cá estiver o presidente.

Anónimo disse...

Oi, essa è boa. Os da Terra têm de fazer as coisas à borla. Aos outros, abrem-se os cordões à bolsa. Mesmo que não haja minguém a assistir. Quanto mais caro, melhor. o Rei vai mesmo NU! Um velho socialista, que não mete o socialismo na gaveta.

Alexandre disse...

Clube dos Nadadores de Inverno é a super banda!

João disse...

É estranho que VAV,uma autoridade,tenha necessidade de mencionar o meu nome para defender as suas teses.Totalmente descabido esse "ex-futuro"porque só poderia sê-lo após eleições e não quero submeter-me a elas.
Mas, é verdade, não sou favorável a iniciativas culturais de nulo valor formativo e de nulo efeito atractivo de pessoas vindas de outras bandas que dêem movimento à terra.Sou,na realidade, mais partidário de acções que valorizem pessoas(sobretudo jovens)residentes no concelho.
Por exemplo, sou a favor do ensino de linguas,com intercâmbio com os respectivos países,do ensino do teatro,sobretudo do ensino da representação na vida,do ensino da escultura e pintura,do ensino da arte através da história,do incentivo das várias práticas desportivas.A política a seguir é preparar as pessoas para , em vez de lhes oferecer coisas para as quais não estão preparadas.
Temos que dinamizar vários espaços públicos(biblioteca,centro de apoio rural,centro cívico)com acções desse tipo,em muitos casos dando até trabalho a pessoas do concelho.
JLM

Anónimo disse...

A Ateia não leu o artigo de VAV com atenção...

Essa dos da terra terem de trabalhar de borla...
Depois admiram-se que os da terra queiram (tenham de) ir embora!...
HP

Anónimo disse...

Pronto, já cá não está quem falou! E se estamos de acordo, aqui vai mais esta: será que me explicam, que até podia a d.ra Graça Morais estar bem intencionada, mas porque se apresentava sempre nos Encontros de Poesia, aquuilo sempre me cheirou a esturro, uma senhora que ilustrou o grande Miguel Torga, está na nossa biblioteca, vir ali para dar uma mãozinha à d.ra Olímpia, porque não era de certeza pela qualidade da poesia apresentada pelos rimadores populares?!
Ateia

Anónimo disse...

Olá,

pois acertou em cheio, querida Ateia. Sou um «bocadito ingénuo» e continuo a pensar que é uma virtude - e não um defeito. Quanto a explicar a presença da pintora Graça Morais nos Encontros de Poesia, só ela lhe poderá responder se aí estava em viagem de negócios, como sugere a minha querida. Como sou um «bocadito ingénuo», é-me difícil crer. Mas também hei uma interrogação para as quais não encontro nem resposta...

- Por que escolheria a pintora caucionar culturalmente tais Encontros?, que valiam quase e só como documento sociológico, preferindo a qualidade poética da Dona Flora (e demais dons e donas presentes no Encontro) às do doutor Morais, do dr. Filipe Lobo, de Mário Cândido Pereira, de Gilberto Pinto, de Hélder Rodrigues, de Campos Gouveia, de Otília Lage, de Paulo Moura, de Hélder de Carvalho... porque por estes não consta que se interessasse por ajudar a divulgar o seu trabalho!

Quanto ao doutor João Lopes de Matos, tenho a repetir-lhe que não tenho (muito menos sou) uma autoridade. As leituras e audições apenas me dão uma experiência, melhor ou pior, do que as outras. Agora, acho mesmo que o doutor Matos é o futuro presidente da Câmara de Carrazeda. Pelo menos, o meu, já o é há muito. Pela sua qualidade de ver sempre no Outro qualidades. De não se partir em partidos, religiões, distopias. E o Desert(ificand)o precisava de alguém assim. E lhe

retiro esse ex-, depois do autêntico programa cultural que nos deixou: vincando a valorização das pessoas, sobretudo dos jovens.

Por último, ao Alex: sim,

o Clube dos Nadadores de Inverno , com textos (sobretudo) de Regina Guimarães, voz de Ana Deus (Três Tristes Tigres), com Alexandre Soares (TTT, também), na guitarra, os dois Dead Combo e JP Coimbra (Mesa), na bateria... É muito bom! No concerto a que assisti, o Alexandre ia de costas dizendo Sol ou Dó ou... aos dois Dead Combo. Via-se que a banda era «nova», mas quase sem ensaiar foi muito bom.

Mas excelente foi o concerto a que assisti de João Peludo e a Orquestra Sonâmbula. Música muito original, textos de Marta Bernardes (excelentes!), com uma performance desta incrível...

Para o fim o melhor de tudo: foi mesmo a representação de Leonor Keil. Muito parecida fisicamente com a nossa triatleta Vanessa Fernandes, é uma deusa do palco! Fabulosa.

Vitorino Almeida Ventura

vitorino ventura disse...

Errata:

Onde se lê
Mas também hei uma interrogação para as quais não encontro nem resposta...
Devia ler-se
Mas também hei uma interrogação para a qual não encontro nem resposta...

Anónimo disse...

o mandatário VAV lança aqui a campanha para as elições autárquicas com todas as forças vivas: JLM - presidente; FN -regressa a vice? já se sabe que VAV gosta mais dela do que chocolate, isto é dizer do que OC e os seus Desencontros de Poesia; e o nº 3? o superior moral da CDU, amigo do peito do presidente JLM? E para HR, qual o papel reservado ao superior dos superiores? Assessor de JLM?
laranjinha

João disse...

VAV mais uma vez exorbita o seu papel.Quem é que lhe encomendou o sermão? Se por acaso eu ascender a tão alto cargo,não espere por benesses, que não vou nisso.
Obrigado,laranjinha,por me ajudar a formar equipa.Ainda é preciso arranjar um partido.Se o laranjinha meter lá uma cunha no seu , não seria má ideia.Teria mais hipóteses de ganhar.
JLM

vitorino ventura disse...

O meu caro JLM tinha logo de me desmontar a estratégia... para alcançar umas benesses (ainda bem que não falou em tença, já percebi que se acabariam todas; e assim não arranja melhor patrocínio do que o meu). De todo o modo,

fica claro da minha ingenuidade, uma vez mais: apostar num candidato puramente virtual, ou seja, apostar numa ficção. Como na canção de Beck: Soy un perdedor, I'm a loser, baby, why don't you Kill me?

Estou muito aborrecido com tal desocultação... Só faltava JLM acusar-me de adeleiro, pois das ensanchas, dessas, já não me livro!

Vitorino Almeida Ventura