terça-feira, 5 de agosto de 2008

Daqui e dali... Vitorino Almeida Ventura

Pedro Cordeiro, artista plástico

com manual de prestidigitação

… crítica (construtiva, digo bem, porque nela se encara a sua fase prévia da denúncia e da destruição)…

Luiz Pacheco, in Figuras, Figurantes e Figurões


Há cerca de um mês, escrevia-me o Pedro Cordeiro (sim, o engenheiro mecânico, grande divulgador de música indie, na Rádio Ansiães, com o Jota, ó tempos voltem pa'' trás!, ambos liderando o projecto alternativo Humble Glue, na companhia de Hélder Filipe, Cachet e Milton Morais… — em torno do qual conheci também a Joaquim José Ribeiro e Rui Samões) a pedir-me que discreteasse sobre o seu novo projecto a beta movement. Ora,


tal achado verbal tem origem no entendimento da percepção pela escola da Gestalt ou Psicologia da Forma (Kohler, Koffka, Wertheimer), mais exactamente, neste caso se deve aos Estudos Experimentais na Visualização do Movimento de Max Wertheimer; Pedro Cordeiro explica no my space:

(…) ‹‹uma plateia fixa uma tela onde são apresentadas duas imagens em sucessão. A primeira imagem mostra uma bola no lado esquerdo do quadro e a outra a bola do lado direito. As duas imagens são exibidas em rápida sucessão. O apresentador pede que se explique o que se está vendo. Normalmente, o observador responderá que viu uma bola que se move da esquerda para a direita. De facto, o processo cognitivo da percepção cria a conexão entre as duas imagens que, parecendo uma única, provocam a ilusão de movimento.››


Matéria do 12º Ano da cadeira de Psicologia, a Psicologia da Forma vem, ao princípio do XX° séc., pôr em causa o sistema educacional da época, baseado na lógica tradicional e no associacionismo de Wundt, centrado este em transportar os átomos da física para a consciência, no mínimo das sensações. O que o Gestaltismo põe em causa é precisamente essa lógica — no exemplo máximo de questionar se, ao vermos uma cadeira, é porque somámos anteriormente a visão das partes para obter o todo… Que não, que tal processo lidava com uma estrutura global, que não era reconhecida pela lógica. O que importa aqui, no entanto, procurar é o porquê de Pedro Cordeiro dar a seu projecto musical o nome desse Estudo Experimental que realça uma “óptica virtual” (nas palavras de Rui C. Martins, quando comigo verteu sobre, ao telefone), por um psicólogo que também compôs… algumas sinfonias! Mas não foram estas que o interessaram, mas uma sua-sobre-a-nossa percepção sobre o movimento. O que me parece,

sem escutar (d) sua música, é que Pedro Cordeiro nos remete em ponto prévio para uma linha de continuidade em haver-se a si próprio como _ _ artista... plástico. O fundo dos seus desenhos (já revelados na revista A Linguagem é um Vírus) na página web, os slides, o conteúdo visual dos exemplos que Pedro Cordeiro deixa no my space para a percepção de tal movimento ilusório… São evidências da sua condição:

(…) ‹‹O fenómeno beta também pode criar a ilusão de movimento para perto ou para longe do observador, em escalas diferentes no mesmo plano. Quando a primeira imagem é um objecto grande e a segunda um objecto pequeno, o observador normalmente responde que viu o objecto afastar-se (aproximar-se, caso o tamanho das imagens na sucessão seja invertido).››

Tal curta metragem exemplifica, de igual modo, o modo Humble, humilde — a tudo relativizar —, como Pedro Cordeiro vê o Mundo. Ilusão d'óptica, teríamos sempre que toda a sua-nossa perspectiva não nos dá um absoluto de Verdade. Mais do que isso: dentro de uma Sociedade de Espectáculo, como viu Guy Debord, ‹‹o verdadeiro é sempre um momento do falso››. E a sua-nossa perspectiva, tão editada, assaz manipulada pelos mass media

Agora vem a auto-ironia… Não consegui ainda, por razões im_

pessoais de saúde e trabalho, aceder à Música (na minha Escola e na Biblioteca de Tavira, os filtros impedem a audição no my space e no you tube), mas como entendo que _ minha Opinião não é A, mas Uma, em cada qual sendo sustentada apenas por uma experiência, que todas _ _ audições dão, mas não uma autoridade, nem de secretariado como lança Luiz Pacheco, sarcasticamente: ‹‹Qual o meu papel por ali? Pois aquele que me indicou o Gaspar Simões: sacristão. E muito contente por assistir à missinha››… Assim sendo,

dentro de uma crítica construtiva, a qual começará por ser de denúncia e destruição, como Luiz Pacheco defende na epígrafe que escolhi, proponho uma obra colectiva, levantando do zero algumas questões (estas e outras) que desejo ver respondidas — por mim ou por outros, que de igual

mente queiram vir comentar aqui:

— Que movimento ilusório, na Música de a beta movement?

— Quais as contribuições de Secundini e Cachet?

— Será que Pedro Cordeiro se libertou finalmente da 'má' influência, sobretudo, vocal de Billy Corgan dos Smashing Pumpkins?

— E as soluções de composição: continuam aparentemente simples, como as de Humble Glue?


Vitorino Almeida Ventura


Post Scriptum: Pelo seu blogue no meu umbigo, podem encontrar o divulgador Pedro Cordeiro. Com uma linguagem cuidada (bem mais do que se lhe conhecia!), sobre alguns concertos que (o) marcaram. Incontornável, no seu Planalto, além, muito além de Carrazeda, com hiperligação obrigatória a silêncio é o barulho baixinho de Alexandre Quinteiro.

8 comentários:

Anónimo disse...

Bõ, não foi o mestre HR quem disse que VAV era um escritor transmontano-duriense de qualidade?! Mas é tão difícil que só mesmo o mestre o entende, nem mesmo o doutor JlM e o setor Mesquita, que sáo os intelectuais cá do planalto. Mas o engenheiro Pedro Cordeiro, filho do senhor Abílio da Secretaria da minha Escola, vem com uma cena igual. Totil difícil, meu. Mas o Pedro quer ter sucesso ou tocar para meia dúzia de people`?

Anónimo disse...

Penso que o "mestre" HR não tem aptidões para avaliar VAV!
Quanto à obra de Pedro Cordeiro...é mesmo muito boa!
HP

Anónimo disse...

O "mestre" disse que VAV era um escritor de qualidad?! Onde?!Quando?! Porquê?! Como os tempos são de mudança!!! Mas quanto à música do Pedro Cordeiro,ainda pior para ele, isso é rock, man! Para o "mestre" HR opinar tinha de ser sobre o Rouxinol Faduncho ou um ranchito, de folclore ou na mesa!! Mas que opine!! LOL. Gostava de ver.

Anónimo disse...

Esta cena não tem que ver mais com electrónica do que com grunge? Smashing Pumpkins só se fosse em Humble Glue, meu.
Satânico.

João disse...

Realmente fiquei pasmado com a escrita de VAV(de boca muito aberta e por muito tempo,própria de quem não sabe mesmo nada o que há-de dizer e pensar,que até tive dificuldade em fechá-la).
Já várias vezes me aconteceu o mesmo com VAV mas nunca com tamanha intensidade.
Desconheço a música de Pedro Cordeiro e os juízos que faço tomam como ponto de partida os elementos fornecidos por VAV,elementos ainda assim inseguros,corredios,virtuais.
Há uma ideia que me surgiu logo:a fuga(de Bach,por exemplo).Permanentemente,o som vai e vem, aparece e desaparece,reduz-se e espraia-se,embaraça-se e separa-se.Será isto?
Peço aqui a intervenção urgente de HR,pois só a sua autoridade de Professor pode deslindar este imbróglio.
Mas o meu pasmo(e o do primeiro comentarista) é uma reacção à altura do artigo comentado.
Lembro-me de tantas reacções minhas de boca aberta sempre que algo me surpreendia pelo seu brilhantismo(tão grande que ainda não conseguira interiorizá-lo devidamente).
JLM

Anónimo disse...

Após diversas audições apuradas do myspace dos abetamovement e de outras gravações na casa do Pedro sinto que estamos na presença de um dos melhores projectos de musica independente nacional, a criatividade do Pedro junto com o perfeccionismo do Secundino e do virtuosismo do Carlos, permite-lhes chegar muito próximo da perfeição. As musicas estão muito bem construidas e com tudo no lugar certo.

Nota de rodapé: Espero ter conseguido distanciar-me do facto de ter gostos musicais próximos dos do Pedro Cordeiro e tambem da grande amizade que nutro por ele.

P.S.: Resposta ao anónimo do 1.º comentário (E não respondo pelo Pedro)

Nem sempre sucesso é sinónimo de qualidade, nem sempre tocar para meia duzia de pessoas significa que não se tenha qualidade.

Morcego1976

Alexandre disse...

Ainda não dediquei ao myspace d'a beta movement o tempo necessário para poder dizer que tenho uma opinião, mas soou muito bem às primeiras audições, embora possua uma das mais apaixonantes características da boa música: às primeiras audições pouco se "apanha".

Em resposta ao primeiro anónimo posso apenas dar a minha opinião, já que nada é absoluto quando o Universo de que se fala são os Universos da arte. Assim sendo, caro anónimo, ter sucesso é gostar do que se faz e sentir que se está rodeado de verdadeiros apreciadores daquilo que se cria, enquanto o artista se diverte sem constrangimentos. Ter sucesso na música é sentir-se verdade, sem que para isso seja necessário vender CDs. Mas, claro, é apenas opinião de quem se dava por satisfeito com o que referi.

Quanto ao texto que nos aqui traz, VAV, mais uma vez, me deixa sem palavras. E todos temos a ganhar com isso.

Por fim, muito me honra a menção ao meu blog, que, apesar de estagnado no tempo do mundo dos blogs, não morreu. Para tudo há uma época mágica, uma altura da vida em que algo faz mais sentido que nunca. Mas, tal como a própria vida, também isso passa e o que fica são recordações. Os blogs não são diferentes, e é pelas recordações que nunca apaguei nenhum, só os deixo a viver sozinhos, se bem que diferem da vida na medida em que a qualquer momento podem voltar ao activo. Basta para isso que se encontre para eles um novo motivo, um novo sentido. E deixem-me que lhes diga: o Silêncio recomeçou, ultimamente, a fazer um Barulho Baixinho...

vitorino ventura disse...

Re_
tornando aqui, os passos em volta


Todo o acto premeditado ou
todo o acto leviano tem a sua própria guilhotina.

António Maria Lisboa, Carta Aberta ao Sr. Dr. Adolfo Casais Monteiro, in A intervenção Surrealista.


Em primeiro lugar, gostaria de cumprimentar todos-intervenientes sem excepção. Mesmo_ _ virtuais. Por isso, permita-me o segundo comentarista discordar da sua afirmação, dizendo que Hélder Rodrigues não tem ‹‹aptidão›› para julgar o que escrevo. Aptidão só não existe para se falar da Vida Privada e do Ser de cada qual. Em tudo o mais, Rui C. Martins fixou uma regra de ouro para este blogue, que também o distingue: a da Hospitalidade. Assim,

toda a gente é livre de haver uma opinião, desde que o faça no respeito pelo Outro, não criando personagens da mais pura farsa para o atacarem, aproveitando o facto de nadar de costas. Há uma regra de ouro no jornalismo, que o administrador deste blogue, a sonhar-carrazeda, pratica — quando se ataca que seja de frente e na maior Educação! Também

discordo de João Lopes de Matos, quando confere, no caso, ao mesmo ‹‹professor›› auctoritas. Já citei no texto a Luiz Pacheco, afirmando que as leituras e audições nos podem dar uma experiência (mas tão diferente de uma especialização!), por uma possibilidade de Crítica bem mais democrática. Todos temos direito, como liberdade, de Opinião. (A igualdade nos comentários só não se confunde com igualitarismo nos posts, visando a qualidade, pelo administrador). E não vejo por que um texto redigido em dialecto eliptês de sms não possa ter melhor argumentação do que um-qualquer na ‹‹língua de Camões››, como se esta ainda existisse…

Acresce: não tem importância nenhuma a referência supostamente elogiosa de Hélder Rodrigues, a que fui guiado por mão amiga, num comentário a uma de minhas obras (As Letras como Poesia, _ _ _ publicidade gratuita para a sua reedição, ainda este ano, pela Afrontamento), uma vez que tal resulta apenas de ter sido publicada já por valter hugo mãe, Prémio Saramago em 2007. Quase nos mesmos termos em que Eduardo Prado Coelho se referira ao conjunto das publicações da editora Objecto Cardíaco — pela ‹‹qualidade››… Mas dada a chancela de valter hugo, ou seja, pelo gosto dos Outros,

pelo que não vi aí metamorfose alguma, como divisou (provavelmente melhor do que eu) o primeiro comentarista. E até prefiro que não — que não dê sinais de premeditação ou leviandade, abandonando pelo gosto dos Outros uma teoria da (i)legibilidade para a minha obra… Até se admiraria mais nessa verticalidade.

Mas nem isso aqui tem importância nenhuma. O que eu quis realçar (mesmo sem ouvir ainda a sua música, porque vai muito além) foi mesmo o papel de Pedro Cordeiro:

como divulgador e como esteta, em torno da música… Um papel que deveria relevar-se em qualquer acção cultural para o concelho. Ademais

construindo pontes com os que se foram, alimentando as imagens do Desert(ificand)o… Jota L M, Jota, Rui C. M., Hélder de C., Paulo M., Milton, Kin, Rui S., Emanuel, Pedro C., Gilberto P., Alexandre Q., Rui P., Orlandinho C., Nani... Etc. Pontes que, a nível da Cultura da edilidade,

só foram tentadas por Fernanda Natália. Pessoalmente, não vejo outro caminho para a outra margem. Ainda pra mais agora, se (ao que parece) vai haver uma barragem.


Vitorino Almeida Ventura