quarta-feira, 2 de julho de 2008

Daqui e dali... Maria

Vamos banir o “Você”

O povo, com a sua peculiar e ancestral sabedoria, costuma dizer: “você está na estrebaria”, e lá tem a sua razão.

Se analisarmos a etimologia do vocábulo “você”, verificamos provir este de, vosmecê <>

“É a forma pronominal da 2.ª pessoa do singular, hoje muito usada entre pessoas de condição inferior ou que têm certa familiaridade”.

Daí que o emprego do termo “você” nos pareça pouco nobilitante, quer para quem o profere, quer para quem é objecto do mesmo, principalmente no contexto em que normalmente é usado (quando não há a tal familiaridade).

As pessoas utilizam-no a propósito de tudo e de nada sem se aperceberem, queremos crer, do seu verdadeiro significado e de que ao fazê-lo colocam, desde logo, a outra pessoa numa posição de subalternidade e de inferioridade. Este vocábulo também é proferido, com mais ou menos frequência, nos serviços públicos. Contudo, é na área da saúde onde mais choca ouvi-lo.

Não raras vezes, alguns dos seus profissionais dirigem-se ao doente dizendo: “Você isto você aquilo....” , ignorando ou fazendo por ignorar o seu verdadeiro nome e desconhecendo, o que nos parece mais grave, o preceituado na legislação aplicável, nas regras deontológicas e de boa educação.

É consabido (as normas deontológicas e de boa educação assim o exigem), que todos os doentes ou qualquer outro cidadão devem ser sempre tratados com a maior delicadeza e cortesia (por senhor (a) seguido do seu nome), seja qual for a sua condição social, e não por “tu” ou por “você” como tantas vezes o são, mesmo os de provecta idade, por alguns daqueles profissionais. O doente, uma vez entrado no Serviço Nacional de Saúde, não perde a sua dignidade e, muito menos, a sua identidade.

Esse tratamento, além de não ser minimamente elegante, é também pouco humano, pois pode deixar antever uma atitude de sobranceria e menos respeito por quem, como o doente, se encontra depauperado física e psiquicamente a necessitar, para além de cuidados de saúde, de muito carinho, de muita consideração e de muita atenção.

Humanizar os serviços de saúde passa também e, essencialmente, por sanarem-se actuações incorrectas como aquela que acabamos de evidenciar.

Urge, por isso, que aqueles profissionais corrijam esse seu “modus agendi”, tão pouco curial. E não lhes será difícil fazê-lo. Bastará, para tanto, que se coloquem na posição do doente ou na de um seu familiar nas mesmas condições.

É pois, julgamos nós, chegada a hora de passar-se da teoria aos actos, implementando-se formas de actuar com os doentes, em particular, e demais cidadãos, em geral, mais respeitosas, mais elegantes, mais delicadas, mais correctas.

Pois humanizar é também educar, e educar é um acto cívico. Mas o civismo não é inato, tem de ser ensinado. Compete, por isso, aos pedagogos e a quem de direito fazê-lo.

Maria

14 comentários:

Miguel disse...

Obrigado Maria pelo seu artigo que é cada vez mais actual e pertinente.
É lamentavelmente frequente a falta de educação de grande parte dos funcionários de muitos serviços e que nem sequer sabem dirigir-se a quem frequenta e utiliza os serviços.
"O QUE É QUE VOCÊ QUER?"
Esta é uma das frases que mais fere o ouvido de quem tem e sabe o que é um mínimo de educação. Infelizmente esta forma de se dirigir ao utente é cada vez mais frequente.
O problema é que muitas vezes as chefias sofrem do mesmo mal.
Miguel

Anónimo disse...

Tudo isto acontece igualmente nos cafés, no restaurantes, em grande parte do comércio.
Mas nestes pode-se ir à concorrência. Nos serviços públicos não pode!

Anónimo disse...

O texto do Sr.(ª) anónimo "Maria" é deveras importante e a sua actualidade é irrepreensível.
Em toda a parte o tratamento por "você" é quase constante.
Se na relação entre pessoas, familiares ou não, pode ter um carácter aceitável dada a proximidade, mas sempre de evitar pelas razões apontadas no texto, já na Administração Pública, tem de haver o extremo cuidado de banir essa dialética, tão imprópria no tratamento utente/funcionário.
Parabéns pela oportunidade.

Carlos-Pombal

Roberto Moreno Tamurejo disse...

São muito criticadas e defendidas as formas de tratamento portuguesas... Sr. Doutor, Sr. professor, etc. Eu pedi aos alunos para me chamarem por meu nome, que para isso existe. Segundo li, o "você" brasileiro está cada vez mais a ser utilizado em Portugal, talvez seja uma questão de hábito e não pouco respeito. No fim de conta, todos somos iguais, todos somos "vocês", mas eu chamo-me Roberto. Este assunto das formas de tratamento é profundamente estudado por nós estudantes de português. Abraço, Roberto

Anónimo disse...

Perdoem-me a minha ignorância ou tavez má formação mas, não compreendo o problema do uso desta expressão...
Quando vi o título do texto pensei que seria sobre a abolição do "você" de modo a que toda a gente se tratasse por "tu", como fazem os Espanhois, e que evitaria muitas dúvidas e constrangimentos.
Isso sim, seria útil.

Quais são as alternativas então?
-"o senhor"?
-"a senhora"?

Penso que em muitas situações, o mais correcto é mesmo o "você", mas talvez tenha uma percepção errada...

alguém

Anónimo disse...

...e dizia o pobre réu, num julgamento, ao dr. juiz:
- Vosselência tu...

Anónimo disse...

Estou de acordo com esta última observação. O "você" deveria ser banido definitivamente do nosso vocabulário. O que é ainda mais gritante, é entre certas famílias tratarem os próprios filhos por você, e até mesmo entre irmãos. Em Espanha todos se tratam por tu e nao é por acaso. depois da ditadura de Franco a sociedade quis abolir tudo o que estivesse relacionado com a ditadura. o "você" foi uma feliz vítima. Os médicos tratam os pacientes por tu, e os pacientes aos médicos por tu também. Afinal somos todo iguais. Quer sejamos doutores, engenheiros, agricultores, serralheiros, etc. Nós por cá ainda ficamos chocados.....

João disse...

Sei que o propósito deste escrito é louvável. Visa um tratamento entre as pessoas em que se evidencie o respeito,a consideração,a afabilidade que devemos ter uns com os outros.
Mas talvez isso não tenha muito a ver com as palavras que usamos mas com as atenções dispensadas uns aos outros.Se a nossa atenção recíproca estiver no ponto certo,verificaremos logo que o "tu", o"você",o "senhor", a "senhora" soarão bem aos nossos ouvidos. Dizem os brasileiros:"você aí, venha cá que eu ajudo você".Se ajudar mesmo, o "você" soará de certeza bem.
JLM

Anónimo disse...

Mas não estamos em Espanha.
Por isso temos culturas diferentes.
E aquilo que em Espanha não é considerado grosseiro, aqui já o é.

Em espanhol também se diz que alguém é de "puta madre"!!! Diz-se de alguém que é um tipo porreiro.
Lá não é ofensivo, aqui já é!
Em Espanha uma comida diz-se que está "exquisita" quando está muito boa. Em Portugal já não quer dizer o mesmo.
E há expressões em que acontece o contrário.

Línguas e culturas diferentes!
Parece-me que Maria se quer referir antes à sobranceria que o "você" acarreta e direi mesmo ao abuso de confiança que se quer atingir.

Não me parece que se queira referir à mania de doutorices ou engenheirices que normalmente é exigida por quem realmente não o é!

Anónimo disse...

Para o senhor JLM está sempre tudo bem...
Nem estamos no Brasil, que ainda é mais longe e que tem uma cultura linguística tão diferente da portuguesa.

Anónimo disse...

Esqueci-me de assinar os dois últimos comentários: Miguel

Roberto Moreno Tamurejo disse...

Miguel, é claro que falamos de culturas diferentes, ainda bem! Como "o senhor" disse, temos que respeitar uma norma portuguesa no que se refere às formas de tratamento. Curiosamente um "puto porreiro" em espanhol também acarreta conotações negativas na nossa língua. Eu, por enquanto, vou colar toda estas opiniões, pois são muito úteis para as minhas aulas. Obrigado!

Anónimo disse...

O Miguel compreendeu, efectivaMENTE O QUE EU QUIS DIZER E OBRIGADA por saber interpretar o que eu queria dizer. O uso do "Você", na maioria dos casos é feito com uma tal sobranceria, que humilha e amesquinha quem é objecto desse tratamento. As pessoas têm de ser respeitadas, seja qual for a sua condição social. Gosto muito pouco de certos populismos que não conduzem a nada, a não ser a falta de respeito e consideração entre as pessoas. Cada pessoa tem de se saber colocar no seu lugar, respeitando os outros e fazendo-se respeitar.haveria muito mais a dizer, mas fico-me por aqui
Maria

Anónimo disse...

Creio, apenas, que em harmonia com a palavra «você», deverá ser considerada a linguagem não-verbal que é transmitida em simultâneo...
até mesmo a maneira como é dito o «você»,
a sua verbalização, que subentende a entoação...

O «você» ou o «tu» podem traduzir carinho, atenção, confiança, amizade, compreensão,

tanto quanto desprezo ou autoritarismo...

A expressão do nosso corpo,
sorriso,
olhar,
movimento de braços abertos ou fechados,
vai doar a interpretação que será apreendida pelo receptor, quer seja doutor, engenheiro, criança, mãe, chefe, paciente, utente, vizinho...

Lido com seres humanos, e seres humanos lidam comigo… Lemo-nos, independentemente do grau de conhecimento, atendendo a que a linguagem não-verbal é universalmente reconhecida no convívio (com + vívio)
Não sei a etimologia da palavra,
mas arrisco-me à correspondência: com + vida + vida…

Essencial mesmo, é a individualidade: chamar as pessoas pelo seu nome! É «aquela» pessoa, aquela que se sente um «EU» quando é ouvida e bem cuidada…

Um abraço a todos!

Alzira Lima