quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Daqui e dali... Carlos Fiúza

Poesia e Ciência

Deixem a minha mente poetar, sonhar, vaguear… se preciso for para além da ciência!

Que é a poesia? Que é verso?

Para mim, poesia é a intuição da beleza… sendo o verso a sua expressão rítmica!

Ora, assim como a verdadeira música tem de agradar ao ouvido, assim também os verdadeiros versos terão de ter, fundamentalmente, expressão rítmica…

Terá o telescópico ritmo, som, harmonia? É possível… o Espaço é imenso e infindo, como infinda é a minha imaginação!

Claro que também a ciência terá o seu ritmo, a sua melodia… o seu intraduzível “mistério” e beleza.

Só que a poesia transmite-me uma beleza diferente… consegue dar-me expressão musical, como a música e a dança!

A arte poética traduz os sonhos do meu ideal, as minhas frustrações, as minhas alegrias… cativa-me pela palavra e arrasta-me para o Belo!

A ciência terá muito de belo, também… mas numa linguagem diferente, quiçá não menos bela.

Mas não tem “alma interior” expressiva por meio da qual me imprima poder rítmico… não impressiona os meus ouvidos, ainda que se reflicta também, agradavelmente no meu coração, onde está em potência o sentir da Estética, o riso,as lágrimas... o sonho!

Quero poder sonhar... poder sofrer... poder ser "livre"...
Sonho que sou um cavaleiro andante,
Por desertos, por sóis, por noite escura…”
C.F.

6 comentários:

João disse...

"Quero poder ser livre..." diz o Carlos e pensa que ,dizendo-o com muita força ,fica totalmente livre e capaz de construir a sua própria essência.Mas tal não é possível porque muito do que é já nasceu consigo - é a ciência que o diz e a ciência tem mais força que a sua própria força.
Quando nasceu,os seus progenitores já o formaram com certas características de inteligência,de memória, de sensibilidade.É com estes materiais que vai jogar na vida e,portanto,não se faz, partindo do nada,para tudo fazer.
É melhor aceitar-se na medida do que não é possível mudar,é preciso conhecer-se(conhece-te a ti mesmo)e avançar construindo a sua limitada liberdade,num processo dialéctico de luta entre o aceitar-se e o procurar ser livre,usando a força de vontade com que,em grande medida,nasceu.
Estou a querer tentar convencê-lo a encontrar beleza no determinismo da ciência, a não ser que prefira andar enganado na sua falsa liberdade total.
JLM

Carlos disse...

O Homem… esse não convivente!

Um S. Francisco de Assis poderia chamar, com propriedade, convivente aos bichos da terra, mansos ou ferozes, nocivos ou não, porque a nocividade de tais bichos era vencida pela santidade desse homem.

Porém, os outros homens serão, na realidade, conviventes em relação aos bichos que povoam a terra?
Pois se os homens entre si não convivem, na maioria, senão como lobos uns dos outros, consoante testemunhou Plauto, no dito que se tornou célebre - homo homini lúpus, muito menos convivem com os outros bichos terráqueos.

Schopenhauer afirmou, que quanto mais lidava com os homens, mais apreciava os cães.
Aqui temos um caso, em que é lícito dizer que o homem encontra melhor convivência com os cães do que com o semelhante.

Tudo isto, se considerarmos a palavra convivente no sentido habitual registado pelos bons léxicos (por exemplo, Aulete, que dá a convivente o sentido de “que vive com outrem em relações de amizade”), nos impede o emprego generoso de convivente em relação aos seres viventes connosco na Terra.

É que já no latim convivere tomou sentido tal de familiaridade que até se aplicava na significação de comer juntamente.
Se, portanto, em conviver, e em convivente está impregnada a intimidade, a familiaridade, segue-se que apenas Jesus Cristo, S. Francisco de Assis e poucos mais têm direito a ser considerados conviventes, porque só eles conviveram, de facto, pelo amor, com toda a bicheza, incluindo o bicho homem.

Os seres que vivem ao mesmo tempo e no mesmo torrão do espaço, nesta nossa Terra, neste nosso Globo, não convivem porque vivem luta aberta ou disfarçada uns contra os outros.

E já nos lembrava o Padre António Vieira que os homens e os peixes se comem uns aos outros… logo, não convivem!

Então, se Deus existe… Ele não me tirará o “sonho” de querer ser livre… deixar-me-á “sonhar” que podemos viver… convivendo!

Se assim não for…
Então Deus só pode ter sido uma criação humana! …
Os homens terão sempre necessidade de inventar Alguém a quem culpar pelas suas culpas…

Apupem-me, chamem-me
"idealista", "visionário", até...
mas não me tirem a "minha loucura"...

Carlos Fiúza

vitorino ventura disse...

Estava a ler uma entrevista a Pedro Cabrita Reis (em torno de uma sua exposição no Hamburger Kunsthalle, a que eu gostaria de retornar em breve), quando ele vos poderia dizer, olhando para o chão, sorrindo:

"O homem só pode lidar com o mar e o deserto. São as paisagens que têm a sua mesma dignidade, a sua mesma linha do horizonte." E nesse espaço vi a João Lopes de Matos, na sua razão de ciência.

"As montanhas têm a ver com Deus. É por isso que as subimos, que as tentamos conquistar, para tentar chegar mais perto." Aí julgo encontrar, no trabalho babélico sobre a linguagem, a Carlos Fiúza.

Ab.,

VAV

João disse...

Se,para Deus existir,é necessário que nós sejamos capazes de conviver,no sentido que atribui a este termo,então Ele é mesmo uma criação humana.Nós vivemos uns com os outros.Não convivemos.
E não terá sido Deus a fazer as coisas assim?
JLM

Carlos disse...

Estou a ser "corrompido"...

Já Régio dizia (Cãntico Negro)...

"Todos tiveram Pai,
Todos tiveram Mãe...
Mas eu, que não principio nem acabo...
Nasci do amor aue há entre Deus e o Diabo!"

C.F.

Carlos disse...

Poesia e Expressão

O esteta francês Remy de Gourmont, que escreveu muita verdade sobre problemas de estilo, aconselhou um dia aos poetas: “qu’ils n’écrivent rien sans consultar l’oracle, - l’oreille,” isto é, “não escrevessem nada sem consultar o oráculo, o ouvido”.
Parece-me que este conselho do esteta é muito sensato, muito verdadeiro, e muito ignorado…
Dizem os técnicos da música que a música é a “arte de impressionar a alma por meio de sons, produzidos e combinados de maneira agradável ao ouvido”.
Ora, assim como a verdadeira música tem de agradar ao ouvido, assim também os verdadeiros versos terão de ter, fundamentalmente, expressão rítmica.
De contrário serão tudo menos poesia.
Os poetas, a meu ver, são aqueles que, sentindo a beleza, conseguem dizer-nos a sua expressão musical.
Não foi sem razão ou por mero acaso que, na forma primeira, o ritmo da poesia incluía a dança e a música.

A Arte poética é a expressão estética digna de traduzir
os “sonhos” do nosso ideal.

A tal expressão convém só a modalidade formal que, por mais pura, é a mais digna da poesia: a expressão rítmica.

Penso que à verdadeira Arte poética é imprescindível um poder de atração formal, isto é, que o poeta precisa de possuir o dom de nos cativar pela palavra, para haver comunicação do sentimento do Belo.
Parece esta afirmação fácil, mas ela é necessária por haver críticos que julgam ser a poesia a arte de exprimir o sentimento do belo fazendo “caixinha” com as palavras.

Vou lembrar uma redondilha de Camões, assaz conhecida.
E é de propósito que escolho estes versos para ver se, apesar de tantas vezes escritos e ditos, ainda interessam ao nosso gosto:

Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura;
Vai formosa, e não segura.

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Saínho de chamalote:
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura;
Vai formosa, e não segura…

Indago: Onde está a beleza destes versos?
Só no tema escolhido?
Suponho ter de ser negativa a resposta, porque vendo bem, muitas Leonores e outras lindas raparigas foram antes e continuaram a ir depois, pela verdura, à fonte.
Descalças ou calçadas, com o pote à cabeça, ou não, de cabelos loiros ou pretos, quantas e quantas não mereciam versos que tais?

Sim, é de supor que às fontes de Portugal tenham ido graciosas raparigas e que muitos Luíses as hajam visto e imaginado que sobre elas ia caindo uma chuva de graciosidade.

Mas a verdade é que nem todos esses Luíses foram aquele outro Luís que era de Camões!

Amigo Vitorino,
Feliz pelo seu regresso, agradeço a sua intervenção, como agradeço tenha compreendido o meu “subir à montanha”.

Abraço,
Carlos Fiúza