quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Daqui e dali... Manuel António Pina

Uma perigosa reaccionária

Uma professora da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa ficou sem a regência de duas cadeiras por ter chumbado mais de 50% dos alunos. O motivo invocado pelo Departamento de Química da Nova para a punição não deixa dúvidas: "Aumento súbito do insucesso escolar". Desde que, no sistema educativo português, foi consagrado entre os direitos, liberdades e garantias fundamentais o direito ao sucesso escolar, quem se meta entre um aluno e o diploma a que tem direito (atrevendo-se, como no caso, a dar notas negativas em exames finais) é culpado do pior dos crimes, o de terrorismo anti-estatístico. Se o futuro licenciado sabe ou não sabe alguma coisa (ler, escrever e contar, por exemplo), é irrelevante; o país, as estatísticas e as caixas dos supermercados precisam de licenciados. Foi isso que a professora da Nova não percebeu. Arreigada a valores reaccionários, achava (onde é que já se viu tal coisa?) que "um aluno só merece 10 valores se adquiriu as competências mínimas nas vertentes teóricas e práticas da disciplina". Campo de reeducação em Ciências da Educação com ela. JN

3 comentários:

Carlos disse...

Perdão… mas sou reacionário!

Quando a gente leva uma pisadela, na província a pessoa que nos pisa diz-nos - desculpe, foi sem querer; na capital, o pisador exclama-nos - perdão!

Filosofia linguística do caso:

O povo provinciano mantém nas expressões: peço desculpa, desculpe, faz favor de desculpar e equivalentes o grau de delicadeza suficiente para traduzir que lamenta o sucedido com o pedido de ser considerada a falta de culpa (des, prefixo negativo + culpa).

Na capital, e já também em cidades e vilas do País, vai predominando o pedido exagerado, automático, mecânico e por vezes falso (e até… hipócrita) do perdão.

Uma professora acha que um “aluno só merece 10 valores se adquiriu as competências mínimas nas vertentes teóricas e práticas da disciplina que leciona”?

Ao ser apanhada pela sua Faculdade em falta tão grave,indiciadora de um reacionarismo a toda a prova,
a referida professora muito possivelmente disse “desculpe”… quando deveria ter dito - perdão!

- “Ah! Perdão, mas foi sem querer que dei um 8! O chumbo de mais de 50% dos meus alunos foi um lamentável erro da minha parte”.

E a pergunta que se impõe é:
Se o pedido de “perdão tivesse surgido não teria seguido o seu “caminho”?

E a resposta provável seria:
- “Não faz mal. Vá com Deus! Mas, para o ano, não aumente o insucesso escolar. Lembre-se dos direitos dos alunos ao sucesso!”

E assim teria mantido o emprego…
… e não teria seguido direitinha para o “campo de reeducação em Ciências da Educação”!…

Omnia pro Patria!


Carlos Fiúza

João disse...

Todos chegamos à conclusão de que o autor do artigo e o comentador CF afinam pelo mesmo diapasão. Duas pessoas que me parecem sabedoras.Quem sou eu para afinar por diapasão diferente ou mesmo desafinar?
É que(para mim há sempre um "é que")as coisas não são tão evidentes como parecem!
E se a professora tiver um ar demasiado doutoral? Se ela(como alguns professores universitários que me calharam pela porta)não tiver um mínimo de qualidades pedagógicas? Se ela faltar frequentemente?
Será que ela pode ser assim,sem ser censurada ou avaliada?
Será que os defeitos estão mesmo sempre do lado dos alunos?
Não precisaremos acaso de analisar bem as características do caso "sub judice"para podermos emitir um juízo fundamentado?
JLM

mario carvalho disse...

http://economico.sapo.pt/noticias/eilo-de-volta_97925.html

Ei-lo de volta
30/08/10 00:03 | António Bagão Félix





.Durante um breve período de Agosto, o homem não apareceu. Um descanso e um pesadelo. Um descanso, porque houve espaço para as banalidades próprias da época.

Um pesadelo, porque ficámos sem as "boas notícias" com que o homem aprovisiona o nosso ego. Com o seu regresso voltámos à normalidade.

O homem não tem "paramento", como se dizia na minha terra. Não me refiro a paramento eclesial, pois que um Seminário exige vocação e não faz exames no Dia do Senhor, mas "paramento" de não parar um segundo que seja. De manhã para a noite, lança uma primeira pedra de uma creche, uma segunda pedra de um automóvel eléctrico e uma última pedra de uma parafernália de produção de energia por acção das marés. Dos dossiês, só terá tempo para ler o índice e o "resumo executivo" de um qualquer assessor. Anuncia o pré-anúncio de uma qualquer medida com a mesma pose com que repete ad nauseam uma "boa notícia" ou desaparece cirurgicamente nos dias em que lhe é impossível (coisa rara) transformar um facto mau em bom. Gabo-lhe a destreza com que tira teatralmente o casaco, o ‘footing' que ufanamente exibe urbi et orbi e o ecletismo com que num instante fala e pula convictamente de Euribor, nabos, gripe A, abortos, Magalhães e banda larga, nemátodo do pinho e taxa Robin dos Bosques.

Com o mesmo semblante, confunde o "remoçado" keynesianismo com o "inevitável" liberalismo, exulta com a defesa palavrosa do Estado Social que atropela ao virar da esquina dos problemas e defende vigorosamente quase tudo e o seu contrário. Fala, com prosápia, de défices viciosamente virtuosos ou virtuosamente viciosos. Na economia, saltita entre convergências divergentes e divergências convergentes. Mistura com alquimia taxas moderadoras, deduções fiscais e imoderação de muitas taxas tributárias.

Pratica com indisfarçável prazer o camaleonismo político. É um Chavez nos trópicos, um Zapatero ali ao lado, um Lula na visita a um Buarque de Holanda, um Obama no inglês e até compete na Europa com uma Merkel. Mas atenção: nenhures é um grego, por causa da crise e por temor ao filósofo.

Diz a lenda mitológica grega que o Rei Midas de tudo querer transformar em ouro, acabou por ver a comida e a água de que se alimentava também feitas inutilidades de ouro. Ou seja, rodeado de ouro por todos os lados ... e prestes a morrer à fome!

Ora, o homem é um Midas político e estatístico. Em tudo o que "toca", o negativo se transforma em positivo. É assim na taxa de desemprego, na inflação, no PIB, no investimento, nos impostos, na taxa de pobreza, na desigualdade social, na confiança, no endividamento ... Em tudo! Por isso, há dias exultou pateticamente com um raquítico crescimento do Produto de 0,2% (o quarto pior europeu), debitando, como de costume, a fórmula "uma boa notícia para Portugal" ... Como na lenda, de tanto inebriamento, não vê que as pessoas concretas não conseguem viver com tão boas e fartas notícias? E não haverá uma alminha piedosa que lhe diga que o Rei