quinta-feira, 15 de julho de 2010

Daqui e dali... Vitorino Almeida Ventura

Saramago e a ausência da ausência
Não tenho por hábito subir ao alto da montanha e ficar a ouvir o meu eco... Gosto bastante de quem tenha opiniões e leituras diferentes, como João Lopes de Matos, Carlos Fiúza, Hélder Rodrigues e agora Fernando Gouveia, para quem «o conjunto da obra é uma pertinente interrogação dirigida à sociedade do nosso tempo: as outras leituras da História e a necessária reflexão sobre o arremedo de democracia que vamos tendo», como se nos falasse (deixem-me ser abusivo na minha interpretação) mais do que com o voto em branco do Ensaio sobre a lucidez, do voto nulo no capitalismo selvagem que mata a Caverna, onde estão os oleiros deste e outros concelhos.
Quanto à questão que me coloca, não vou fazer como Francisco Louçã, que transformou a ausência do Presidente da República, numa ausência da ausência, efectiva presença, muito para lá da sua representação oficial.
O inglês Harold Pinter, Nobel da literatura de 2005, não teve nenhum membro do Governo, nem qualquer representante da Coroa, no seu funeral em 2008.

O galego Camilo José Cela, Nobel em 1989, não teve nem o primeiro-ministro nem o rei, em igual circunstância, ao ano de 2002.
Albert Camus, Nobel em 1957, não teve o presidente francês, em 1960...
Claro que não aprecio muito a versão Sousa Lara do nosso Presidente. Mas também o nº2 do regime, o socialista Jaime Gama, faltou... E, como afirmou José Manuel Fernandes, no Público, não me interessa ser polícia das consciências alheias. Pois vejamos o filme ao contrário: se fosse o político Saramago, na sua qualidade de candidato ao Parlamento Europeu, fosse mesmo eleito, por ex., a ter de ir ao funeral de Cavaco Silva será que ia? (Mesmo se «representante de todos os portugueses»?) Ou haveria muitos a dizer que seria coerente... Com o seu «azedume político»!
Gosto muito do escritor José Saramago e interessa-me muito a sua obra. Nunca quis conhecê-lo pessoalmente, até porque às vezes quando o fazemos, des_
fazemos a aura mítica com que vemos quem admiramos. E gosto de manter uma certa idealização.

Vitorino

Post Scriptum: João Lopes da Matos referiu a diferença do homem e da obra.
Recordo Céline, no mesmo sentido. Alguém tão anti-semita, mas que produziu aquela Viagem ao fim da Noite. - Como apagar tal obra com os seus de_
feitos humanos?

7 comentários:

Anónimo disse...

Saramago nunca iria ao funeral de Cavaco, mas isso aí já seria um acto cultural, contra um «fascista» ou «capitalista», porque os comunistas ainda hoje têm a mania que são os donos da cultura.
M.M.

Carlos disse...

"Colalogo" ...

Dizer-se que o riso é "colalogo" equivale a afirmar o que o Povo diria assim - o riso "desopila".
É uma dição popular portuguesa esta de "desopilar" o fígado, isto é, desobstruir o fígado, pois a desobstrução do fígado dá alegria.
Ora "colalogo" é termo científico a significar - que faz segregar a bilis, que purga a bilis, que influi no aparelho biliário.
É de interesse relacionar a expressão portuguesa "desopilar o fígado" com a noção muito antiga de que o fígado e a alegria e a tristeza se relacionam também.
A nossa palavra "melancolia" contém, como já o latim e o grego correspondentes continham, o vocábulo helénico "khole".
"Melancolia" era para os antigos a "bilis negra", a bilis causadora da negrura da tristeza.

Que "desopile", pois, o fígado quem o quizer ... ou puder!

Carlos Fiúza

Carlos disse...

"Colagogo..."

Pretendi "aliviar" o blogue fazendo graça ... foi pior a emenda do que o soneto, isto é, saiu-me o tiro pela culatra.
Então não é que "saiu" colalogo?! em vez de colagogo!
Neologismo, ou "liberdade poética" como diria o Rui?
As minhas desculpas.

C.F.

Anónimo disse...

Não me parece, VAV, tão líquido que tenhamos opiniões e leituras diferentes, e não apenas em relação a Saramago ou àquela questão de "a ausência da ausência"... enfim, já não estou tanto de acordo com "o arremedo de democracia..." (Fernando Gouveia), embora esteja com este quanto ao que opina sobre o "conjunto da obra...".
Agora, o que hoje me deixou estarrecido (foi o adj. que me saltou de imediato e cá fica), foi aquilo que li na última página do JN, cantinho do Manuel António Pina, quando este ali denuncia Rui Rio e seis vereadores PSD/CDS por terem chumbado uma proposta do vereador Rui Sá (CDU), "no sentido de ser atribuido o nome de José Saramago a uma rua da cidade (do Porto!)". A ser verdade (e para mim, Manuel A. Pina é absolutamente insuspeito), aqueles governantes "tripeiros" devem ter saído do "Ensaio sobre a Cegueira" e assim, às cegas, de trambolhão em trambolhão por ali abaixo, ainda vão parar ao Doiro...
h.r.

Anónimo disse...

O seu gosto pelo paradoxo: a ausência da ausência, fazemos desfazemos, etc. lembra o padre António Vieira, e o senso comum não entende... A começar pelo título.

vitorino ventura disse...

Fico sensibilizado com a opinião e leitura de h. r., mas continuo a achar que temos (e é útil que tenhamos, ou vamos dar ao Homem Duplicado: e lá assoma Saramago, outra vez) opiniões e leituras diferentes.

Também gosto de ler muito a Manuel António Pina, salvo quando também ele, por vezes, goste de exibir um lápis azul, ao dizer que no século XX, por ex., só há 4poetas em Portugal: Sophia e Eugénio, e mais dois... Que, pensando em Pessoa, Sá-Carneiro, Cesariny, Herberto Hélder, Ruy Belo, Luiza Neto Jorge, Fiama, Ramos Rosa, Luis Miguel Nava, só assim de repente, significa que na sua própria História Literária do século XX o próprio Manuel António Pina não cabe, para muita pena minha, pois gosto de o ler poetica_

mente, mas também significa de certa forma querer silenciar e apagar a tantos outros, atitude semelhante à dos políticos em questão. (Pior, pois que diabo, são políticos!). Agora,

quanto ao outro Anónimo, por acaso outro dia o meu filho (ilustre representante do senso comum) perguntava-me o porquê da ausência. E eu, respondi-lhe matematicamente, em língua portuguesa: 2 negativas anulam-se uma à outra, ficando uma positiva. menos com menos dá mais.

Ab.,

VAV

vitorino ventura disse...

Errata: salvo quando também ele, por vezes, gosta