sexta-feira, 2 de julho de 2010

Daqui e dali... Vitorino Almeida Ventura

Saramago e o Nobel da Literatura

Em termos gerais (muito gerais), pode dizer-se que houve dois Saramagos. Que até bem perto
do Nobel, Saramago como que encarnou a sua personagem de (…) o cerco de Lisboa (1989), Raimundo Benvindo Silva, o qual, pela incumbência em rever um livro sobre a História de Portugal (baseado na de Alexandre Herculano), resolve cometer propositadamente um erro, acrescentando um Não... Sempre havendo alguém que resiste,
alguém que diz

«os cruzados Não auxiliarão os portugueses a conquistar Lisboa».

Embora a editora avançasse depois com uma ERRATA, tal erro provocaria a necessidade de se reescrever aquele episódio da História de Portugal. E Raimundo Silva, digo, Saramago, sente-se então motivado a tomar aquela frase como motivo para reescrever a História. Que tal reescrita acontecera também em Memorial do Convento (1982), onde Saramago misturou a factos reais com personagens inventadas, Blimunda e Baltazar, operário este à medida da luta de classes, no sentido marxista. Que concluía pela «nova» versão de que não foi o rei a construir o convento de Mafra, mas o povo que nele trabalhou. (E lá está a Igreja, ao serviço da Opressão…). Mas tal reescrita já sucedera também em O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) - sobre as voltas do heterónimo epicurista triste de Fernando Pessoa por Lisboa, em A Jangada de Pedra (1986) - no que se questiona o papel de Portugal… e Espanha, pela então CEE, através da metáfora da nossa Península, soltando-se da Europa e encontrando a seu lugar, entre a velha Europa e a nova América; e aconteceria depois com O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991)… De igual modo,

o nobelizado que se lhe seguiu, Gunter Grass, também operou uma outra visão da História, pelo lado dos vencidos, sobre
tudo e todos seus livros, em O tambor (1956) e A Ratazana (1986)… Questionando a dois milagres económicos: o nazi e o da Queda do Muro… Mas,

voltando a Saramago, a 2ª fase é a dos temas universais: do mundo capitalista sem rosto e razão humanos, da nossa mais do que cristã?, tão existencialista?, histórico-materialista «condenação» à Morte… Entre 1995 e 2005, em torno do Nobel de 1998, Saramago publicou mais seis romances, em que as intrigas se desenrolam já libertas de personagens de anais históricos, e de locais ou épocas bem definidos: assim o Ensaio Sobre a Cegueira (1995); Todos os Nomes (1997); A Caverna (2001); O Homem Duplicado (2002); Ensaio Sobre a Lucidez (2004); e As Intermitências da Morte (2005). Assim,

se dá depois um retorno à re_
escrita, digo, à imaginação prodigiosa de cobrir os espaços em branco da História, com a obra-prima A Viagem do Elefante (2008), a partir do facto bem histórico de o rei D. João III ter oferecido a seu primo, o arquiduque Maximiliano da Áustria, genro do imperador Carlos V, um elefante indiano, Salomão, que há dois anos se encontrava em Belém, vindo da Índia.

- Façam a Viagem!
Vitorino

16 comentários:

João disse...

Vou aproveitar a sugestão para ler com atenção Saramago:é que eu não sou um literato e ultimamente até pretendia desligar-me do romance para me ligar, de alma e coração,à ciência,em especial,à neurociência.
JLM

Carlos disse...

Belo texto este, o de Vitorino, dirá algum crítico encartado …
Por minha vez direi:
Sim, belo e perfeito, com um oportuno e inteligente interpretar da História.
Mas só isso?
Não! Muito mais ...
O seu estilo,para tão “majestática” figura, teria de ser isso mesmo: majestático, sagaz, à semelhança do Pensador que também o é!
Os meus parabéns

Carlos Fiúza

vitorino ventura disse...

Agradeço as referências amáveis,

mas tenho de dizer que se fosse agora diria que na 2ª fase da Obra a personagem aglutinante seria a Morte, de As Intermitências...

Ab.,

Vitorino

Carlos disse...

Amigo Vitorino,

Não poderia estar mais de acordo consigo ... efectivamente (ainda que o nosso contacto seja esporádico), na altura perguntei-me o porquê de não ter feito referência à "Morte".
Sagaz, como sempre o considerei ...
Mais uma vez, parabéns.

Carlos Fiúza

Anónimo disse...

Neste blogue, o espaço de Saramago é maior do que no dos pseudo-comunas. O que é que está a acontecer?

Anónimo disse...

Ninguém fala dos saneamentos que o Nobel Saramago fez a seguir ao 25 de Abril, quando, num conhecido jornal correu muitos dos seus colegas a pontapé para a rua... Deve ser o seu lado estalinista de que ninguém se quer lembrar...

Anónimo disse...

Ouvi dizer que quando recebeu os 200 mil euros do nobel o deu todo aos pobres, como é aliás apanágio dos verdadeirios comunas.
Ass. Zé do Telhado

Anónimo disse...

O grande JLM já falou no lado estalinista dele. Estes comentários não distinguem o homem e a obra, como deveriam.

Cumprimentos,


LVS

Anónimo disse...

Para suavizar o coração de algum anti-comunista saramago durante o verão quente, leia-se com atenção:

CARTA PARA JOSEFA, MINHA AVÓ

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo - e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira - sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha.
Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?). Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.

Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, umas coisas que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos - e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti - e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.

Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas - e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!".

É isto que eu não entendo - mas a culpa não é tua.

José Saramago

João disse...

As pessoas pensam que as doutrinas e as pessoas só têm aspectos positivos ou negativos.
Não. Todos nós temos lados mais positivos e menos positivos, melhor,Tudo e Todos têm características num sentido e noutro.
Como diz LVS(não sou em nada grande)há que distinguir entre o homem e a obra.Esta pode ser excepcional e o seu autor ser ou ter sido um escroque(o que não é o caso de José Saramago,em que os aspectos positivos superam,de longe,os negativos).
O cristianismo e o comunismo têm muitos aspectos positivos: o cristianismo o amor ao próximo,o espírito de dádiva,o espírito de abnegação,o desprendimento dos bens terrenos,o comunismo o desejo de justiça social e a máxima tão bela "de cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades".
Só que,por vezes,exageramos(e de que maneira!)nos métodos(daí a inquisição no cristianismo e as prisões arbitrárias e assassinatos no comunismo).
JLM

Fernando disse...

Depois de ler em vários sítios uma grande quantidade de disparates sobre Saramago, sabe bem ler no blogue da minha terra uma apreciação adulta, inteligente, do Homem e da obra. Obrigado, caro Vitorino Ventura, por ter dado o pontapé de saída destes comentários.Obrigado aos comentadores, que demonstraram uma boa avaliação, isenta de sectarismos ou revanchismos.

A apreciação das obras é segura, sem prejuízo de outras leituras. Pessoalmente, dos romances de Saramago, preferi "O Evangelho..." e os dois "Ensaio sobre a Cegueira" e "Ensaio sobre a Lucidez". Mas não há dúvida que o conjunto da obra é uma pertinente interrogação dirigida à sociedade do nosso tempo: as outras leituras da História e a necessária reflexão sobre o arremedo de democracia que vamos tendo.

Fernando Gouveia

Anónimo disse...

E como julga JLM a falta de Cavaco ao funeral de Saramago? E Carlos Fiúza? E VAV? Nada disseram porque têm medo da polémica?

Anónimo disse...

O presidente Cavaco Silva reagiu em seu nome e dos despedidos do DN.
Igual a si mesmo.
A. Braz

Fernando disse...

Não queria referir-me aqui à ausência do Cavaco nas homenagens póstumas, porque já o fiz noutro local. De qualquer modo, Cavaco reagiu como sabe: com a sua total incultura política, ficou à margem dum movimento de apreço em que se distinguiram as autoridades espanholas. Foi bem feito. A única cultura de Cavaco são os números e as estatísticas. Fora disso, demonstrou a sua incapacidade de distinguir a função presidencial das ocupações de chefe de família. Lamentável.

vitorino ventura disse...

(Ao anónimo de 8 de Julho de 2010, pelas 09:33)

Não é ter medo de polémica, meu caro. Aliás, não tenho por hábito subir ao alto da montanha e ficar a ouvir o meu eco... Gosto bastante de quem tenha opiniões e leituras diferentes, como João Lopes de Matos, Carlos Fiúza, Hélder Rodrigues e agora Fernando Gouveia, para quem «o conjunto da obra é uma pertinente interrogação dirigida à sociedade do nosso tempo: as outras leituras da História e a necessária reflexão sobre o arremedo de democracia que vamos tendo», como se nos falasse (deixem-me ser abusivo na minha interpretação) mais do que com o voto em branco do Ensaio sobre a lucidez, do voto nulo no capitalismo selvagem que mata a Caverna, onde estão os oleiros deste e outros concelhos.

Quanto à questão que me coloca, não vou fazer como Francisco Louçã, que transformou a ausência do Presidente da República, numa ausência da ausência, efectiva presença, muito para lá da sua representação oficial.

O inglês Harold Pinter, Nobel da literatura de 2005, não teve nenhum membro do Governo, nem qualquer representante da Coroa, no seu funeral em 2008.
O galego Camilo José Cela, Nobel em 1989, não teve nem o primeiro-ministro nem o rei, em igual circunstância, ao ano de 2002.
Albert Camus, Nobel em 1957, não teve o presidente francês, em 1960...

Claro que não aprecio muito a versão Sousa Lara do nosso Presidente. Mas também o nº2 do regime, o socialista Jaime Gama, faltou... E, como afirmou José Manuel Fernandes, no Público, não me interessa ser polícia das consciências alheias. Pois vejamos o filme ao contrário: se fosse o político Saramago, na sua qualidade de candidato ao Parlamento Europeu, fosse mesmo eleito, por ex., a ter de ir ao funeral de Cavaco Silva será que ia? (Mesmo se «representante de todos os portugueses»?) Ou haveria muitos a dizer que seria coerente... Com o seu «azedume político»!

Gosto muito do escritor José Saramago e interessa-me muito a sua obra. Nunca quis conhecê-lo pessoalmente, até porque às vezes quando o fazemos, des_

fazemos a aura mítica com que vemos quem admiramos. E gosto de manter uma certa idealização.

Ab.,

Vitorino

Post Scriptum: João Lopes da Matos referiu a diferença do homem e da obra.

Recordo Céline, no mesmo sentido. Alguém tão anti-semita, mas que produziu aquela Viagem ao fim da Noite. - Como apagar tal obra com os seus de_

feitos humanos?

Carlos disse...

Funeral e... "Cara" …

CARA - É de origem grega esta palavra, e em escrita grega era “Kara”. Este grego deu o baixo latim “cara”.
Tanto no grego como no baixo latim, o significado era "cabeça".
Do sentido de cabeça passou ao de “rosto” e “face”. Por extensão, começou a empregar-se no sentiso de “aparência”.
Ora, como a “aparência” tanto é das pessoas como dos animais e das coisas, “cara” emprega-se, há séculos, em português e em outras línguas no sentido geral, não restrito, de "aparência".
O nosso povo tem uma frase em que mistura “cara” com “focinho”, que é quando diz de pessoas muito parecidas – “cara de um, focinho de outro”.
Os burros, por exemplo, segundo os homens têm cara.
Pelo menos, os homens, às vezes dizem-se mutuamente – “olha o cara de asno”.
E no Brasil diz-se muita vez isto: Ficou com cara de cachorro, que é como quem diz – “ficou ressabiado”.

À bon vin... bon latim!…

C.F.