terça-feira, 5 de abril de 2011

Daqui e dali... Carlos Fiúza

X.P.T.O

Ao folhear uma revista sobre automóveis, onde se gabava a excelência das linhas de determinada marca, deparei com a seguinte frase: “DESIGN X.P.T.O.”
X.P.T.O. - há quanto tempo não lia (nem ouvia) tal expressão!
Seria que estas novas gerações conheciam o termo?
Para me tirar de dúvidas, na primeira oportunidade abordei um grupo de jovens com idades entre os 13 e os 15 anos.
Dos cinco, dois já tinham ouvido falar em X.P.T.O…. Um deles sabia, até, que X.P.T.O. era “uma coisa assim como que bué de boa”. Bué de boa…
E não é que o rapaz (nada “rasca”, mas que pode vir a estar “à rasca”) estava certo?!
Se abrirmos o Tesouro de Frei Domingos Vieira, encontramos isto na letra X: “- Termo de gíria - XPTO; diz-se para designar excelência de cousa - Cousas de XPTO - Isto é XPTO. Diz-se também XPTO London. Qual a origem desta frase assaz espalhada e hoje pela primeira vez recolhida? XPTO era uma abreviatura de Cristo nos antigos manuscritos, mas a forma XPTO London parece indicar antes que a frase se originou numa marca comercial ou expedição.”
Se consultarmos o Dicionário Contemporâneo de Aulete e Valente, leremos:
XPTO - palavra burlesca empregada para significar excelência ou primor de alguma coisa. Um vestido x.p.t.o. Erro de leitura da abreviatura grega da palavra Cristo.”

Passemos, agora, ao Dicionário de Cândido de Figueiredo:
X.P.T.O. - expressão burlesca para designar qualidade excelente, magnífica. Diz-se de uma abreviatura medieval de Cristo.”
Como ainda é de interesse, transcrevo o que diz Antenor Nascentes no Dicionário Etimológico:
XPTO - abreviatura medieval de Cristo em que o ró se confunde com o P maiúsculo latino. Segundo outros, era o letreiro dos caixotes de uma marca inglesa de cobertores, do preço de X libras: XP (ondera) T(ectoria) O(ptima) - ótimos cobertores a dez libras.”
A esta última informação de Nascentes convém acrescentar que o brasileiro Castro Lopes, no trabalho intitulado Origens de Anexins, foi espalhador muito convicto dessa origem imaginosa da fábrica inglesa de cobertores metidos em caixotes com a abreviatura X pondera tectoria otima (ótimos cobertores a dez libras).
Porque é que XPTO era abreviatura do nome grego de Christos?
Acrescento a seguinte explicação, destinada aos que não saibam latim nem grego.
A forma do alfabeto grego com o desenho de um X (xis maiúsculo) era o chamado qui. Portanto, a primeira letra do nome de Cristo, em grego. Ao qui seguia-se a forma ou letra chamada , correspondente ao r latino. Essa letra, quando maiúscula, é semelhante a um P. Finalmente o T era em grego o tau, e o O era o ómicron.
Ora, como o P maiúsculo latino era semelhante ao grego, é realmente de aceitar que X.P.T.O. mais não seja que a má interpretação da abreviatura do nome de Cristo em grego.

Mas deixemos os “dicionaristas” e passemos à prática:
Sugiro a quem de Direito a utilização do termo X.P.T.O. nas placas de sinalização, isto é, seja o mesmo afixado em tabuletas a colocar à entrada das inúmeras pontes não “operacionais: FORA DE SERVIÇO – X.P.T.O”.
Em tradução livre:

- NÃO PODES PASSAR – DEZ.PE.TE. NADA

Não seria “bué de fixe”?

Carlos Fiúza

4 comentários:

mario carvalho disse...

Parabéns

afinal quem tinha razão era quem dizia que português não era lingua.. o pretuguês sim..

assim como o outro que diz que foi a brincar a brincar.. mas .. que o Brasil devia anexar Portugal e .. não faltará muito.. a Venezuela anexar a Espanha... e Chavez ficará como o Cortêz da America latina ou vv

Enfim quando não ha´ rumo .. navega-se à bulina .. de quem bufa mais.. até ir ao fundo

Anónimo disse...

Relativamente à afirmação de Carlos Fiúza (afirma que a letra ró era semelhante ao P), o dicionarista José Pedro Machado afirma o seguinte: "X.P.T.O.- abreviatura medieval de Christo em caracteres gregos, FALSAMENTE JULGADOS COMO SENDO AQUELES EM QUE ró (...) SE CONFUNDIU COM O P LATINO". A seguir, também designa X.P.T.O como "expressão burlesca para designar excelência, magnífica". Os dicionários da Lello Universal dizem exatamente o mesmo. Já os da Academia das Ciências de Lisboa, nem sequer tocam no assunto. O Dicionário Houaiss também confirma mas vai mais longe, aludindo também à "inscrição nos caixotes de uma marca inglesa de cobertores ao preço de dez libras".
De qualquer modo, não deixa de ser curiosa esta expressão, pelo que Carlos Fiúza, mais uma vez, mostra-se oportuno, clarividente e... trabalhador até à minúcia! Parabéns!
Cumps.

h.r.

Anónimo disse...

Texto fabuloso!
Mais um!
Maria

Carlos disse...

“CF afirma que a letra ró era semelhante ao P”.
Urge esclarecer:
Por falta de precisão não referi que esta letra foi “falsamente” confundido com o P latino.
Na verdade, as diferenças entre ambos saltam à vista.
A única explicação que encontro para a “semelhança” é a de, sempre que “queremos fortemente” uma coisa, tomarmos a nuvem por “Juno”.
No entanto, tem razão h.r. quando chama a atenção para a “falsa semelhança”.

Cumps.
C.F.