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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Daqui e dali... Carlos Fiúza

Sonhar Português

Era uma vez um povo que sempre sonhou que um dia ainda viria a ser rico.
Esse povo olhava “para fora” e sonhava: Tenho o mesmo direito, ou não?
E um dia os seus “pares” (vindos dessa Europa que ele pensava ser rica) bateram-lhe à porta… e ele escancarou-a.
Não mais couves com batatas”, sonhou; “não mais um punhado de azeitonas e uma côdea de pão bolorento…
Como que por milagre…
… os antigos “caminhos de cabras” deram lugar a quilómetros de belíssimas estradas (com três faixas para cada lado e separador central) … a enxada e o velho jumento foram substituídos por um “todo-o-terreno” topo de gama… as traineiras (essas latas inúteis) foram “abatidas” e encostadas aos cais, lá apodrecendo aos poucos.
Para quê plantar, semear, pescar… o supermercado da esquina tinha todos esses produtos e a preços bem convidativos.
O Escudo dera lugar ao Euro… o futuro estava, assim, assegurado!
E esse povo (que já se pensava feliz) continuou a sonhar…
Em quê já não sabia… mas sonhava!
E para sonhar melhor, comprou uma casa de férias na praia… trocou de carro, de hábitos… de ALMA!
E continuou a sonhar, a sonhar muito (não em como pagar as casas, os créditos que se acumulavam) … mas a sonhar/pensar o quão “trabalhoso” é não fazer nada!
Pois se os bancos lhe ofereciam “dinheiro barato” (quase de borla!) … se o incentivavam, até, a ter a sua própria piscina, era porque o seu “sonho” era exequível… era, mesmo, um “direito adquirido”.
Mal sabia esse povo que o ato de sonhar anda quase sempre de mãos dadas com a não ação.
E porque o não sabia, continuou a sonhar, a pensar até que se o moleiro era pago por fazer o pão, ele devia ser pago por sonhar.
Não era ele um sonhador?!
Não havia nada de desperdício no seu sonhar…
Não é verdade que nem todo o ato de sonhar corresponde a uma ação?
Se aceitamos (e pagamos) a um escritor, a um metalúrgico, a um político que primeiro sonham e só depois executam (quando executam), porque não aceitar (e pagar) a quem apenas sonha?
Não comanda o sonho a vida (como sempre lhe disseram)?
E assim esse povo “descobriu” que o ato de sonhar é, muitas vezes, semelhante ao ato de nada fazer ou mesmo ao não existir.
Como o ato de dormir… porque mesmo a dormir os sonhos são imagens criadas no cérebro.
E assim…
… o dormir e o sonhar se completavam!
Os “biliões” (ou os milhares de milhões, como um dia ouviu na televisão) passaram a povoar os seus sonhos…
Até que um dia, com os credores quase a baterem-lhe à porta e os mercados financeiros a fecharem-se-lhe, leu (casualmente) num dicionário:
BILIÃO = Mil milhões = Um milhão de milhões”.
Achou isto estranho, um autêntico “absurdo aritmético” e não conseguiu compreender:
Como é que um “bilião” é um “milhão de milhões”?
Outro dicionário lho esclareceu:
Bilião, ou antes bilhão – mil milhões (1.000.000.000) segundo o sistema português, francês, italiano e americano OU um milhão de milhões (1.000.000.000.000) segundo o sistema inglês e alemão”.
Os “zeros” cegaram-no e pensou: “Porquê ter um bilião com 9 (nove) zeros quando posso optar pelo sistema inglês ou alemão e ter o mesmo bilião com 12 (doze) zeros?”
E assim, por mera “engenharia aritmética”, mudou de sistema… e passou a sonhar que tinha muito mais “dinheiro” (como os ingleses e os alemães) … para alguma coisa lá estavam os zeros.
De novo “rico”, esse povo continuou a sonhar… e a gastar!
Não foram as maiores ações da Humanidade fruto do sonhar/pensar?
O IRS, o IVA e a Inflação não nasceram do sonho/pensamento? Como o Holocausto?
Capitalismo e mercados financeiros não são entraves ao “sonho”?
Não são os “indignados” de hoje (ou os indigentes do amanhã) uma pústula no “sonhar” dominante?
Mas…
… sobre isso o melhor é nem sonhar/pensar!
O presente diz-nos que todos os malefícios que assolam a humanidade tiveram a sua génese no sonho/pensamento… em muitas noites de insónia!
Foi assim em Hiroshima… como o foi no Darfur… como já o tinha sido antes com o “arianismo”!
Finalmente esse povo acordou e (já dolorosamente desperto) pela última vez SONHOU que o mais “racional” era… DEIXAR DE SONHAR!

E assim aconteceu!

Carlos Fiúza

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Daqui e dali... Carlos Fiúza

Requiem…

ALMA do pequenito e grande Portugal! Como estás doente!
Tua Língua, tua Força, teu Donaire, tua Elegância, tua Sonoridade, tua Destreza, tua Correção de linhas, tua Graça, tudo, tudo parece quererem roubar-te os que te abandonam ao desprezo de uma “evolução” que é antes corrupção.

Diz-se por aí, às vezes, parafraseando o dito de um linguista estrangeiro (Vossler) mal compreendido:
- “A pátria é aquele homem da rua, que ali vai, que a transforma e a faz”.

Experimento...
Chego-me ao pé desse homem, desse que está a fazer a pátria, e indago:
- “Podia dizer-me a que horas parte o comboio para Sintra?”.
E ele responde:
- “Tem agora o trama das quinze e um quarto…
Subo a escada, entro na chamada “gare”. Vejo escrito numa placa: “Sintra. Tranvia”.
Fico a pensar: será trama, será tranvia?
Quem faz a pátria, quem faz a língua… e quem na desfaz?
Quem acaba com os artificialismos e com as charadas na expressão pública?
Quem ajuda a estabelecer a destrinça entre corrupção, confusão e… “evolução”?
Quem defende eficazmente a personalidade quase perdida do nosso Portugal?

Como o substituído de Frei Luís de Sousa, Portugal pode responder ao “quem és tu?” - NINGUÉM!
Ou, como na simbologia vicentina, pode afirmar-se que todo o mundo faz gala na vandalização da alma pátria, da nossa personalidade linguística e “ninguém” quer saber da sua defesa…

Pobre Alma de Portugal! Amor da nossa herança e língua de nossos antanhos!
Podias ser tão bela!
Cheia de “baton”, mas desalinhada, com muitos berloques ortográficos mas com remendos em tuas vestes, querem fazer de ti mulher que se entrega ao primeiro pecador que te macule!

… E pecadores somos todos nós!

Mas por que não há de haver um Templo onde te prestemos culto, onde se pregue a palavra da tua Verdade, onde se defenda o teu Espírito, onde purifiquemos a nossa gesta de faladores e escrevedores?

… E, no entanto, valia a pena, porque a nossa Alma Expressiva é feita à imagem e semelhança da Língua do nosso Povo e essa – não é pequena!

(Um erro, uma falta muitas vezes leva a acontecer outro erro, outra falta).

Carlos Fiúza

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Daqui e dali... Carlos Fiúza

Tradição e linguagem (a vida das palavras)

É um oceano imenso o estudo da linguagem. Mil vidas que um homem tivesse não lhe chegavam para considerar os milhentos aspetos da vida das palavras.
Agora mesmo peguei na pena, ou seja neste objeto ao qual também chamo caneta, e, fixando a atenção nestas duas palavras - pena e caneta, resolvi aceitar a inspiração para um tema, a que poderia dar o título de nomes de coisas velhas em coisas novas.
Exemplos? Há-os à farta. Podemos continuar com a pena.
Os nossos antepassados utilizavam as penas das aves para escrever, especialmente as grossas penas de gansos, cisnes e corvos. Depois de convenientemente aparada, a pena de pato servia otimamente para escrever.
Hoje recorremos às canetas de tinta permanente (ou às esferográficas), que bem diferentes são das velhas penas, e até as próprias canetas de aparo, que representavam progresso em relação àquelas, foram substituídas pelo moderno objeto.
No entanto, o nome de pena resiste, e muitos de nós o empregamos, esquecidos do sentido etimológico. O esquecimento deste não é recente, pois já nas escolas há muito se diz, por exemplo - a pena. Pena que não é de pena, mas se chama pena.
O termo “pena” ganhou há muito o sentido figurado de estilo e até de escritor - “fulano é uma boa pena”, isto é, escreve bem.
E caneta?
Caneta vem de cana, da qual é um diminutivo. Hoje não escrevemos com as “caninhas” ou “tubozinhos” em que se encaixava o lápis ou a própria “pena de escrever”.
Perdida a ideia inicial, muito se aplicou a caneta (ou seja a “caninha”) com referência aos tubos metálicos, por vezes com cabos de madeira, osso, marfim, etc.
Também no latim calamus era cana e passou a nomear o objeto com que se escrevia, quando feito de cana, e até quando já o não era.
Com as canetas escrevemos numa folha de papel.
Folha - cá está outra palavra designadora do que foi e já não é.
A folha da árvore foi utilizada para nela se escrever. Em nossos dias já não se pensa na folha da árvore, porque se escreve no papel. Mas a palavra antiga resiste, e revela sua origem a quem nela atentar. O mesmo acontecera, antes, no latim, onde “folium” era não só a folha da árvore, mas também a folha (por exemplo, a da palmeira) em que se escrevia.
Ergui agora os olhos do papel e pousei-os no candeeiro.
Calcule-se: no candeeiro elétrico!
Que era um candeeiro, em tempos idos? Era um utensílio de candeia (pois candeia + eiro deram candeeiro), e candeia, simples vaso de bico por onde saía torcida, parte da qual se embebia, por exemplo, em azeite.
O candeeiro já era, em relação à candeia, um progresso que a própria derivação aliás traduzia.
Rodaram os tempos, aperfeiçoaram-se os processos, e as mechas ou as torcidas, o azeite, o petróleo, os bicos das candeias e dos candeeiros não deixaram vestígios nestes aparelhos elétricos que são os candeeiros de hoje. No entanto, apesar de a candeia de tempos idos não nos vir à ideia ao olharmos para um candeeiro de nossos dias, lá está na palavra a marca de sua família.
Quero agora chamar a atenção para dois factos. O primeiro é que os velhos nomes podem, por metáfora ou por alguma relação comparativa, continuar a utilizar-se em novas modalidades de objetos do mesmo uso, embora de forma e processos diferentíssimos.
Assim, por exemplo, a palavra lâmpada, que nomeava vaso com óleo onde se acendia torcida, utiliza-se hoje no chamadoiro das lâmpadas elétricas. Mas (e este é o segundo facto que desejo apontar), note-se que o novo processo criou nova expressão ao idioma, por meio de mero “alargamento” semântico.
Nós dizíamos acender a luz com referência às lâmpadas antigas, aos candeeiros, etc. Hoje ainda dizemos isso. Porém, como surgiram os interruptores, também com eles veio novo dito - abrir a luz.
Quer dizer, nos tempos de hoje abrimos e fechamos a luz, abrimos e fechamos o gás, ou, então, acendemos e apagamos a luz, etc. De antes, apenas dizíamos acender ou apagar, porque não havia este “abrimento” de correntes elétricas… ou gasosas ou aquosas, como em abrir a água.
Aqui em cima da mesa, além da folha de papel, além da caneta e do candeeiro elétrico, está outra coisa que também me serve para prosseguir nestes pensamentos a respeito das extensões e translações de nomes velhos em coisas novas de nossos tempos.
Em cima da mesa tenho também os óculos de uso casual, irmãos dos que estão nos olhos para ler e escrever.
Óculos - eis uma palavra que serve para mostrar que o progresso científico precisa muita vez do regresso linguístico.
Ora, em latim, olhos era “oculi”.
O progresso criou, portanto, estas cangalhas dos olhos; mas a língua portuguesa regressou ao velho latim, e lá foi buscar aos oculi a chamação para elas. E esta mesma palavra “oculus” (no singular latino) regressa ainda mais ao primitivo sentido, quando, emprestada à ciência, refere o globo dos olhos, ao qual se chama globo ocular.

Em muitos outros aspetos da vida moderna poderemos ir descortinar aspetos da vida de outros tempos… os exemplos são infindos.
É só atentarmos…

Carlos Fiúza

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Daqui e dali... Carlos Fiúza

Sacripanta & Companhia


Em pleno “centro histórico” da cidade onde resido, situa-se um dos cafés mais “castiços” que conheci até hoje.
De seu nome “Portugal” (curioso nome, não?) tudo lá acontece…
Autêntico caldeirão de sociabilidade e cultura, tudo ali é permitido. Não se pode fumar? Pois fume-se! Não de deve dizer mal da Câmara (mesmo em frente)? Pois diga-se, especialmente quando a sua presidente ali vai para tomar uma “bica” retemperadora! Não se deve chamar de “corruptos” aos representantes dos diversos partidos políticos? Pois chame-se: se não for a mesa 1 será a 4, a 7 ou a 10!
É “PROIBIDO PROIBIR”! E assim a sua “fauna” é diversa…
À negrura das capas dos universitários junta-se a brancura da indumentária dos pintores da construção civil. À palavra mais comedida opõe-se o mais puro vernáculo… Dir-se-ia que Deus e o Diabo entram lá de mãos dadas, misturando sons e cores, odores e temperamentos!
São as conversas em voz alta de mesa para mesa; são os diversos sons do futebol com as “provocações” do costume à mistura; são, enfim, tudo a que se possa chamar de “surreal”…
Mas tudo parece “normal” para os seus frequentadores! Qual “tertúlia”, quer chova ou faça sol, religiosamente, lá vou todos os dias!
Pois há dias assisti a uma zaragata por causa de um “penalty” que o não seria (ou seria?).
Palavra puxa palavra, insulto traz insulto, comportamento arrasta comportamento.
Daí à intervenção dos polícias de giro (antes que a batalha verbal descambasse em campal) foi um “ar que lhe deu”.
No meu “canto” (sim, porque cada “grupo” tem o “seu canto”, a sua área geográfica bem definida por “cores” clubísticas, políticas, intelectuais ou outras) assisti a todo o desenrolar da “cena”. Só não sei o início (se é que isso interessa).
Cheio de “gozo” interior e enquanto um dos polícias tomava os apontamentos da ocorrência (tentando apaziguar os ânimos), eu fui apontando (mentalmente) as minhas notas de filologia filosófica dos insultos ou das ofensas que acabara de ouvir.
Um sujeito, exaltadíssimo, disse ao outro: “Você é um canalha, um pirata, um malandro, um filho da p….
Peço desculpa, mas não posso reproduzir o adjetivo final com que o sujeito classificou, numa síntese violenta, o seu antagonista (melhor dizendo, a mãe deste), o qual, depois de ouvir os doestos do “inimigo”, se saiu com esta:
Olhe, mais vale ser canalha, biltre, pirata, malandro ou mesmo filho da p… do que ser um fingido, um cínico e um sacripanta como você é.”
Posso afiançar que as pessoas circundantes dos rivais, ao ouvirem a palavra sacripanta, desataram todas a rir, inclusivamente o polícia que não resistiu ao poder do vocábulo sacripanta. Como utilidade linguística, aquela zaragata (autêntica escola de escárnio e maldizer) ministrou-me assunto para o estudo que passo a apresentar da linguagem dos insultos mais frequentes.
Isto de se chamar sacripanta a um sujeito como se explica? Estou em crer que 99% das pessoas que se dão à prática de ofenderem o próximo com tal epíteto nem sonham com a origem, que foi esta muito simples:
O poeta da renascença italiana Ariosto, na epopeia romanesca, espirituosa e pinturesca chamada “Orlando Furioso” deu-nos o celebérrimo personagem do Sacripanta, tipo de perverso, velhaco, um verdadeiro patife, um homem canalha.
Este tipo do Sacripanta famoso, entrou, portanto, na adjetivação comum de patife.
Mas continuemos… O primeiro dos zaragateiros chamou canalha ao outro.
Que é canalha? Coisa boa não é.
A canalha começou por ser um coletivo: era o ajuntamento de cães.
Cão em latim era canis ou canes. Ora, já em latim o cão se podia utilizar com injúria.
De can se formou o coletivo francês canaille, o coletivo italiano canaglia, o coletivo português canalha, etc.
Em francês, como cão é chien, houve chiennaille; mas o italiano canaglia sobrepôs-se e formou-se canaille.
Canalha é, pois, na essência, o conjunto de cães, a cachorrada.
As mulheres do Norte, rodeadas de sua filharada, quando esta faz desmandos, gritam: “Estai quedos! Que tal está a canalha!”.
Canalha são os filhos, como cachorrada que faz diabruras.
Como os cães juntos, se já são maus, se tornam piores, é óbvio que a palavra canalha passou a aplicar-se, figuradamente, à gente ruim.
Perdida a noção de que a canalha era coletivo, formou-se em aceção singular para referir o indivíduo patife.
O chamar-se, por exemplo, cínico a alguém implica em que também entra o cão, ao recordar que cínico veio do grego Kynikós, de Kyon, cão, do nome de uma seita de desdenhadores, que mordiam moralmente.
Quanto ao pirata, foi-se buscar à vida dos mares esse epíteto.
Pirata era toda a gente que andava nas aventuras dos mares, tentando a boa sorte, porque em grego peiratês é o que tenta, de peirán, tentar.
O termo injurioso malandro é mais complicado e a sua origem muito confusa.
É possível que malandro seja um derivado regressivo do italiano malandrino, que nos deu malandrim, tudo relacionado com a sarna das pernas das bestas e dos vagabundos.
De vagabundo passou ao sentido pejorativo. Em francês há malandrin, também do italiano malandrino.
Deve, pois, o malandro relacionar-se com pústulas e sarna.
Depois de estudados os termos ofensivos da zaragata a que assisti, passo a trazer à análise outras palavras de injúria.
Seu patife! - Aqui está uma exclamação frequentíssima, infelizmente prova de que há muita patifaria no mundo.
Parece que patife se relaciona com espatifar, do latim patefacere, abrir (as entranhas, por exemplo).
Relacionar patife com espatifar é, pois, de coerência semântica e formal.
E o maroto? Esta palavra entra muito em injúrias, com tanta intensidade como o mariola.
Seu maroto, seu mariola!” Isto é audível amiúde. Mas também se ouve muito: “Ele é um marau”. Ora, como em francês há maraud, trapaceiro, gatuno, larápio, os marotos, os maraus devem relacionar-se no sentido de patife, larápio e até… gato vadio.
O maroto é assim, como marau, de baixa estirpe, e até aos figos maus e bravos se chama “figos marotos”, como se chamam “olhos marotos” a olhos com maldade ou leve malícia.
Está-se a ver claramente que nos insultos se vai buscar à condição dos “Vadios, Moinantes & Companhia” a forma de injuriar.
Não é useiro este termo “vadio” como ofensa? Vadio é o vagativo, o que vagueia.
Ele é um biltre!” Aqui temos nós outro termo assaz injurioso, recebido de França, onde bêlitre, mendigo, vadio, miserável, maltrapilho, foi a princípio frade mendicante.
Belistre, bêlitre, que nos deu biltre, começou, portanto, na indigência dos peregrinos frades da França, passou a mendigo e de mendigo saltou ao sentido injurioso de patife, malandro.
Quando se diz “seu biltre”, fundamentalmente está chamar-se mendigo, pedinte, indigente à pessoa que recebe o ofensa.
E o rol seria infindável…
Mas é de mencionar um facto importante: a degradação semasiológica de certos termos utilizados como injúrias, os quais, tendo ganho um mau sentido por exagero, para sempre ficaram tomados à má parte.
Por exemplo: vilão, traficante, tratante.
És um vilão, és um tratante”. Isto hoje ofende. Mas dantes não ofendia, porque vilão era o da vila, e tratante era o que tratava, como traficante era o que traficava.
Chamar vilão a um homem era tão natural e tão inocente como chamar-lhe camponês. Mas vilão passou a campónio. Por influência de vil, julgou-se que vilão era o muito vil, e como já o sentido de campónio (que o vilão incluía) ajudava a ser vilão sinónimo de grosseiro, rude, baixo, o vilão passou a termo de injúria.
Tratante significa propriamente o que trata, o que se encarrega de tudo, no sentido de comércio, negócio, tráfico de mercadorias. Hoje, porém, torna-se à má parte, e é quase sinónimo de traficante.
Como se vê, a luta de interesses e de negócios dá o seu contributo à linguagem injuriosa.
Não admira. Tem sido sempre assim, desde que o mundo é mundo…
Os rivais são hoje os que, por oposição de interesses, disputam algo, como riquezas, valores morais e materiais, etc. Pois, os rivais primitivos eram os que estavam em margens opostas dos rios: latim rivalis, de rivus, rego de água, ribeiro. Os ribeirinhos, os que conduzem a água pelo mesmo ribeiro, eram rivales. Ora, das rixas, das zaragatas, por causa da concorrência das águas, nasceu a rivalidade, a inimizade.
A rivalidade, a inimizade pode trazer o insulto e o escândalo.
O escândalo põe a linguagem do avesso, trocando até inocências por maledicências.
Por exemplo, este termo que acabo de empregar, escândalo, não tinha nada de mal, e agora tem. Escândalo pode ser hoje ofensa ou injúria.
Como nasceu escândalo? Nasceu numa pedra, a pedra que faz tropeçar, em grego skándalon, a pedra do escândalo.
Quem tropeça irrita-se. Quem se irrita em geral injuria.
A inspiradora das injúrias é na verdade a ira. E a ira é tão perigosa que até os próprios cultores da virtude caem nela.
Se tropeçamos, chamamos nomes às pedras. Se nos queimamos, chamamos nomes ao lume.
E até se conta que certo rapazinho estava um dia atento a ver um padre mui virtuoso a pregar um prego na parede.
Perguntou-lhe o clérigo: “porque é que estás tão atento a ver-me pregar um prego?”
Desculpe reverendo, respondeu o moço, mas estava a ver se vossa reverência falhava o prego, para eu saber o que o senhor padre diria, ao dar com o martelo nos dedos”.
Esta não é do Padre Manuel Bernardes, mas serve para lhe dar razão quando ele disse que a “ira é como o cão, e esta às vezes primeiro morde ao hóspede, do que este lhe possa dar nome”.
Façamos, então, como as crianças, quando nos ofenderem.
Macaco sem rabo!” chamou um miúdo ao outro. Resposta deste: “Sou macaco, tenho fama. Mais macaco é quem me chama”.

Carlos Fiúza

terça-feira, 14 de junho de 2011

Daqui e dali... Carlos Fiúza

O “psicanalista” e eu - Parte II


“… as tendências e a razão são realidades com peso semelhante” (JLM).

Há no Homem grande multiplicidade de tendências, mas todas elas derivam de um impulso vital ou vontade de viver, que na criança se manifesta apenas pelas tendências instintivas e aumenta consideravelmente no adulto à medida que se desenvolve o conhecimento do mundo, de si mesmo e dos bens ideais.

Assim, o adulto espiritualisa e intelectualiza as tendências instintivas, tornando-as voluntárias, adquirindo outras novas - as habituais.
Todas as tendências têm influência na formação do “eu”, como realidade consciente, alimentando-o e desenvolvendo-o.
No entanto, todas as tendências devem ser regradas e bem dirigidas; caso contrário, em vez de qualidades dignas da “pessoa”, tornam-se vícios nefastos (como aponta, e com razão, o meu amigo João Lopes de Matos).
Há quem afirme que a “pessoa” não é mais do um fruto da sociedade.
Não é essa a minha “visão”.
Para mim, cada PESSOA tem na sua própria natureza o que a caracteriza - a RAZÃO!
A sociedade pode, quando muito, contribuir para a sua formação e defesa.
Lembremo-nos que as tendências não são conscientes em si próprias, mas nas suas manifestações.
Por vezes, condições morais e conveniências sociais (como a educação) exigem que as regremos e dominemos para evitar os seus desmandos.
Para isto forma-se em nós uma espécie de “crítica” (como que uma censura) que “fiscaliza” a passagem das tendências do inconsciente para o consciente, para avaliar a sua “conveniência” ou “não conveniência”.
A este trabalho chamou Freud de “recalcamento” ou “ repressão”, ensinando-nos que a tendência contrariada produz um estado desagradável, que nos pode levar à cólera, à tristeza doentia e ao desespero.
Mas, as tendências assim reprimidas não desaparecem imediatamente… permanecem em nós à espera do momento oportuno para se satisfazerem.
É para evitar estes factos que recorremos à “sublimação”, desviando a tendência de um objeto para outro, transformando-a numa de ordem superior.

Todo o Homem é provido de psiquismo inferior (temperamento) e de psiquismo superior (caráter).
Toda a nossa vida psíquica obedece, assim, a estas duas forças que lhe dão uma uniformidade e uma constância tais que nos permitem determinar (com uma certa exatidão) o comportamento do Homem em face daquilo que o estimula.

Quando este binómio “falha”, podemos cair nas tendências exaltadas, ou seja, nas “paixões”, as quais se desenvolvem mais nuns indivíduos do que noutros, consoante certos fatores de ordem fisiológica, social e psicológica.

E é aqui que ocorre a “VONTADE” (ou a falta dela) … a paixão só se poderá desenvolver ou fortificar se o Homem não estiver na plenitude de si mesmo, isto é, se não tiver uma vontade forte.
E quando essa vontade falta… surgem os “desvios”, apontados por JLM.
Só que… quer a cleptomania quer a psicopatia (como eu “entendo” o Homem) são atos involuntários da sua própria vontade (ou da falta dela) - são, tão só, disfunções neurovegetativas.
Aqui (como salienta JLM) o campo é fértil … a neurociência o dirá!

“… a comida roubada à monja franciscana e ao goliardo, poderá constituir-se alimento daqueles que não conseguem produzir algo de próprio” (VAV).

Carlos Fiúza

P.S. Obrigado a ambos.

Daqui e dali... Carlos Fiúza

O “psicanalista” e eu…


Qualquer tratado de psicologia (mesmo “manhoso”) ensina que tendência é uma disposição ou propensão do ser vivo para produzir outros atos e procurar determinados fins.
As tendências aumentam em número e complexidade desde o animal ao homem e da criança ao adulto.
Os “apetites” devem ser regulados pela razão, sob pena de degenerarem em paixões grosseiras.
As tendências são, assim, “guardas” da nossa personalidade, e, por isso, são legítimas e necessárias quando contidas em justos limites; de contrário, dão origem a vícios, como o ódio, a inveja, o orgulho.
O homem é naturalmente levado a “imitar” o que vê nos outros, e daqui se conclui a força do exemplo na educação da juventude, que o povo sintetiza no aforismo “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és”.
A própria “simpatia” é já um contágio de emoções e não um simples contágio de atos, como a imitação.
Amar é querer bem ao objeto amado; é uma inclinação do amante para com o amado, que o leva a encarnar-se neste.
O objeto amado vive no amante, como o objeto conhecido no conhecedor.
A amizade é uma modalidade do amor de benevolência; é um amor de preferência entre duas ou mais pessoas.
A amizade procura, mediante ações, a felicidade de outra pessoa; tudo é comum entre amigos, porque o amigo é como que um outro “eu”.
O amor e a amizade adoçam as agruras da vida; são estímulos capazes de levar o homem aos maiores sacrifícios.
Uma vida passada sem amor e amizade é uma vida estéril, infeliz, que incapacita o indivíduo de empreender grandes obras.
Todas as grandes ações são fruto de amor e amizade.
É certo que em oposição ao amor, temos o ódio, que dá origem a atos de aversão.
Daí o dizer-se que todos os atos têm por base o amor ou o ódio.
No entanto, como o ódio a um objeto ou pessoa deriva do amor que temos a outro objeto ou pessoa, por aquele impedir a prossecução deste, não repugna basear todas as tendências no amor.
Toda a vida psíquica do homem, caracterizada por uma infinidade de atos, é condicionada pelas suas tendências que não são mais do que energias para atuar.
No homem cada órgão tem a sua função e cada atividade a sua finalidade, mas todas estas funções ou finalidades devem ser dirigidas num único sentido:
o HOMEM deve agir como convém a um ser que pensa.
Daqui a minha “confusão”:
- Germano ou género humano?
Carlos Fiúza

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Daqui e dali... Carlos Fiúza

A minha “Dama”…

Nunca a desnacionalização dos idiomas esteve tão perigosa como hoje.
As comunicações são mais rápidas, os ares (ou o cabo) trazem-nos vozes estranhas que as emissoras espalham na intimidade dos lares da cidade, da vila, da aldeia, e até na habitação da serra.
Como mal ainda maior, na nossa Pátria há um gosto servil e ignaro por tudo o que é maledicência.

Além “desta ditosa Língua nossa amada” precisar da defesa de nós todos que constituímos a “ditosa Pátria nossa amada”…

… EU preciso de defesa.

Aprendi no sábio médico A. Carrel que os órgãos, se perdem a resistência aos micróbios, podem atrofiar-se e até fabricar venenos.
Pois, eu direi, também, que a ação microbiótica dos “erros” pode ocasionar desordens funcionais e estruturais ao corpo.
Este fica doente. E a doença pode ser caminho da morte.

A “maledicência” pode ser “organismo”, mas é desejável essa anomalia?

Se não enfado, passo a demonstrar:

Dois comentadores (a coberto do anonimato, como convém), perguntam:

Realmente, não sei como Carlos Fiúza e João Lopes de Matos alinham num diálogo com alguém que não respeita os direitos de autor, usurpando o pensamento alheio como se fosse dele próprio. Ainda por cima, tecendo-lhe os mais rasgados elogios”.
.....
Anda tudo a copiar… a copiarem VAV, que sem estar presente, é quem mais ordena”.
…..
Pergunto:
- Podem (pretendem) estes “comentadores” provar as suas insinuações?

Por mim, explico:

- Não tenho predileção por qualquer dos Blogues de Carrazeda de Ansiães… não os conhecia, tão pouco.
- De ambos os Blogues (na pessoa dos seus administradores e leitores) só tenho recebido atenções.
- Não conhecia (pessoalmente) ninguém em Carrazeda.

Tenho, no entanto, o privilégio de ser amigo do Dr. João Lopes de Matos.
E porque sou seu amigo,
…não acredito que fosse sua intenção “arrastar-me” para uma “aventura” mal sucedida quando me convenceu a participar nesses Blogues.
…A sua verticalidade, o seu sentido de justiça e amizade a isso o impediriam.

Estamos habituados a trocar ideias… a “especular” filosoficamente sobre os diversos problemas que nos preocupam.
Nem sempre estamos de acordo, é verdade… o que até tem sido salutar.

Mas… “pactuamos” com a bajulação…?!
Por mim (por ambos, melhor dizendo) afirmo que isso não é verdade, até demonstração em contrário.

Quando elogio (ou não) um texto, um comentário, tenho sempre a preocupação de me ater só à “forma”.

Recordo:
- Em tempos idos, neste mesmo Blogue, alguém (mais uma vez anónimo) “sugeriu” que os meus escritos só poderiam ser dignos de em “super-homem” ou de alguém que estivesse “habituado” a consultar (leia-se: copiar) a Wikipédia…

Ironia das ironias…
- O mesmo VAV (a despropósito chamado, agora, à liça por esse mesmo anónimo) comentou:

“… O ataque às suas fontes, aquele, já me parece bem ridículo, pois deveria ser acompanhado com a respetiva prova. E que mal teria, se não fosse na Escola, mas na Web, buscar o saber? Se é autêntico... Fosse uma cópia sem espessura, aí sim, mas quando se ataca (aprendi com os clássicos, não esqueço) deve atacar-se de frente”.

Não pretendo protagonismo… já não tenho idade nem “pachorra” para “querelazinhas domésticas”…
Mas sempre digo:

- atitudes destas só “matam” a PALAVRA…
- só “atrofiam” o PENSAMENTO…

Obrigado a todos os que me leram.

“Sonho que sou um cavaleiro andante,
Por desertos, por sóis, por noite escura…”

Carlos Fiúza

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Daqui e dali... Carlos Fiúza

AS “tremuras” da Senhora Dona Terra

A Terra, ou seja, prosaicamente, este poleiro onde Deus nos colocou nos espaços siderais, foi, na imaginação mitológica, figurada por uma mulher, em cujas disposições físicas predominavam os seios, o que, diga-se de passagem, não estava mal pensado, porque as elevações semelham essas saliências femininas.

Ora, não consta da biografia terrena que ela fosse uma senhora nervosa, dada a tremuras, como resultado do desequilíbrio do seu metabolismo.

E não disseram os antigos que Dona Terra era nervosa, porque tal informação se tornaria ociosa, visto que toda a gente sabe que a Terra de tempos a tempos sofre tremuras. De vez em quando anda em crise, tremendo nervinamente, espasmando-se, convulsionando-se.

Tanto a Terra anda nervosa, cheia de tremuras, logo os jornais, as rádios e as televisões não deixam de nos fazer “tremer” os ouvidos com o disparate do “abalo sísmico”.

Não se desesperem os leitores nem os ouvintes. Aqui lhes aconselho o lado “humorístico” do caso. Sorriam, ponham-se mesmo a rir, porque o riso “lava a alma”.

Filosofemos sobre o assunto, a ver se se arregimentam adeptos sensatos que repilam a “abaladura sísmica”.

Como se sabe, uma das consequências da ação das forças interiores da terra é aquilo a que o nosso povo chama com admirável propriedade - tremor (e às vezes trumor) de terra.


Mas a linguagem apresenta gradações. E assim o que o povo diz na sua espontaneidade não serve muita vez ao uso experimental de certos setores da falação.

O nosso povo é um ás ou, se quiserem, um alho para aperfeiçoar o latim à sua loquela.

Se adrega de ouvir terremoto, emenda logo para terramoto, pois se é a terra que se mexe, terramoto eis o que lhe parece que deve ser.

Tem a linguagem portuguesa, sempre rica de valores, cinco maneiras de nomear os tiques nervosos da Senhora Dona Terra - tremor de terra, abalo de terra, abalo telúrico, terremoto e sismo.

Mas cinco formas não bastaram e em alguns “iluminados” surgiu uma estupenda calinada, obstinadamente repetida em letras e sons, em penas e bocas, em prelos e microfones - desânimo “abalador”!

E a calinada aí continua… (como certas pilhas: e dura… e dura… e dura).

Sendo a nossa língua realidade terrena, logo que a terra anda em crise de nervos, imediatamente a expressão noticiadora e registadora sofre em reflexo a “tremura abaladora” do desânimo.

Estimo as melhoras à Terra.

Aos jornais digo para tomarem “neurobióticos”… aos políticos (todos) que não dupliquem a sua dose diária de “Burrocitina”.

…Mas deixem o povo em paz! Deixem-no governar a sua vidinha… (se é que alguma coisa sobrou do “governanço”).

Carlos Fiúza

terça-feira, 5 de abril de 2011

Daqui e dali... Carlos Fiúza

X.P.T.O

Ao folhear uma revista sobre automóveis, onde se gabava a excelência das linhas de determinada marca, deparei com a seguinte frase: “DESIGN X.P.T.O.”
X.P.T.O. - há quanto tempo não lia (nem ouvia) tal expressão!
Seria que estas novas gerações conheciam o termo?
Para me tirar de dúvidas, na primeira oportunidade abordei um grupo de jovens com idades entre os 13 e os 15 anos.
Dos cinco, dois já tinham ouvido falar em X.P.T.O…. Um deles sabia, até, que X.P.T.O. era “uma coisa assim como que bué de boa”. Bué de boa…
E não é que o rapaz (nada “rasca”, mas que pode vir a estar “à rasca”) estava certo?!
Se abrirmos o Tesouro de Frei Domingos Vieira, encontramos isto na letra X: “- Termo de gíria - XPTO; diz-se para designar excelência de cousa - Cousas de XPTO - Isto é XPTO. Diz-se também XPTO London. Qual a origem desta frase assaz espalhada e hoje pela primeira vez recolhida? XPTO era uma abreviatura de Cristo nos antigos manuscritos, mas a forma XPTO London parece indicar antes que a frase se originou numa marca comercial ou expedição.”
Se consultarmos o Dicionário Contemporâneo de Aulete e Valente, leremos:
XPTO - palavra burlesca empregada para significar excelência ou primor de alguma coisa. Um vestido x.p.t.o. Erro de leitura da abreviatura grega da palavra Cristo.”

Passemos, agora, ao Dicionário de Cândido de Figueiredo:
X.P.T.O. - expressão burlesca para designar qualidade excelente, magnífica. Diz-se de uma abreviatura medieval de Cristo.”
Como ainda é de interesse, transcrevo o que diz Antenor Nascentes no Dicionário Etimológico:
XPTO - abreviatura medieval de Cristo em que o ró se confunde com o P maiúsculo latino. Segundo outros, era o letreiro dos caixotes de uma marca inglesa de cobertores, do preço de X libras: XP (ondera) T(ectoria) O(ptima) - ótimos cobertores a dez libras.”
A esta última informação de Nascentes convém acrescentar que o brasileiro Castro Lopes, no trabalho intitulado Origens de Anexins, foi espalhador muito convicto dessa origem imaginosa da fábrica inglesa de cobertores metidos em caixotes com a abreviatura X pondera tectoria otima (ótimos cobertores a dez libras).
Porque é que XPTO era abreviatura do nome grego de Christos?
Acrescento a seguinte explicação, destinada aos que não saibam latim nem grego.
A forma do alfabeto grego com o desenho de um X (xis maiúsculo) era o chamado qui. Portanto, a primeira letra do nome de Cristo, em grego. Ao qui seguia-se a forma ou letra chamada , correspondente ao r latino. Essa letra, quando maiúscula, é semelhante a um P. Finalmente o T era em grego o tau, e o O era o ómicron.
Ora, como o P maiúsculo latino era semelhante ao grego, é realmente de aceitar que X.P.T.O. mais não seja que a má interpretação da abreviatura do nome de Cristo em grego.

Mas deixemos os “dicionaristas” e passemos à prática:
Sugiro a quem de Direito a utilização do termo X.P.T.O. nas placas de sinalização, isto é, seja o mesmo afixado em tabuletas a colocar à entrada das inúmeras pontes não “operacionais: FORA DE SERVIÇO – X.P.T.O”.
Em tradução livre:

- NÃO PODES PASSAR – DEZ.PE.TE. NADA

Não seria “bué de fixe”?

Carlos Fiúza

terça-feira, 29 de março de 2011

Daqui e dali... Carlos Fiúza

In illo tempore - os ”migrantes

A “santa terrinha”, onde cada qual nasce, nem sempre dá o pão de que o corpo necessita. Quando esta insuficiência se verifica, muita vez o natural de uma terra vai ganhar a vida a outra terra, próxima ou distante, consoante os casos. Evidentemente, a migração pode ser individual ou coletiva. Assim, um portuense pode vir para Lisboa trabalhar e um lisboeta pode ir para o Porto granjear o sustento e, claro está, em infindáveis levadas e vindas, se trocam pessoas e populações entre umas terras com outras. Acontece, por vezes, que certas terras ou certas regiões recebem (ou recebiam) amiúde largos contingentes de trabalhadores, quer por já de antemão os buscadores do trabalho saberem que não é em vão sua procura de tarefa e de sustento, quer porque as tradicionais qualidades de umas gentes trabalhadoras são conhecidas, apreciadas ou necessitadas nas terras ou na região recetivas.

Era o caso, por exemplo, dos ranchos migratórios que vinham de Aveiro e de Coimbra trabalhar para a região do Sado, onde eram precisos para a faina da cultura do arroz.

Eram conhecidos por “caramelos” esses obreiros rurais que vinham dar a sua contribuição operosa aos arrozais do Vale do Sado. Se quisermos outro exemplo, aí o temos naqueles trabalhadores beirões que, principalmente de Arganil e redondezas, procuravam as lezírias e os campos do Sul do Tejo para qualquer ocupação que lhes desse o ganha-pão.

Eram os “barrões”, nome por que nos ambientes ribatejanos eram conhecidos os beirões migradores.

- “Barco parado não faz viagem” - costuma dizer-se, e bem facilmente se compreende que, nesta viagem que é a vida, o barco do trabalho tenha de andar de um lado para o outro, à procura do pão onde ele estiver.

Não há na terra? Busca-se noutro lado. É o que faz quem precisa de ir “esgravatar” a vida fora da terra-mãe.
E assim surgiram os “caramelos”, os “barrões”, os “ratinhos”…
E até o nosso grande Gil Vicente aproveitou os “ratinhos” da Beira como um tipo característico de simplório com laivos de esperteza.

Muitos ratinhos vão lá
De cá da serra a ganhar,
E lá os vemos a cantar
E bailar bem como cá…”
Por aqui se vê que, já no tempo de Gil Vicente, era popularíssimo o chamadoiro de “ratinhos” para os beirões que iam procurar trabalho aos campos do Alentejo e de parte da Estremadura, sobretudo em tempos de colheitas de trigos, e vindos de lá da serra. O intercâmbio das gentes rurais com as gentes citadinas necessariamente causa ensejos de manifestações de superioridade ou de pseudo-superioridade entre os da cidade e os de fora. E então, amiúde, os vaidosos urbanos pegam de acoimar os campónios de inferioridades várias, supeditando-lhes nomes depreciativos.

E assim nasceram os “pategos”, os “labregos”, os “labroscas” e até os “saloios”, etc.

- Ah! Grande “matarroano”!

Também acontece que, em lugar de um nome, se recorra a uma locução, e então criam-se ditos, como - ele veio lá “das berças”, veio da “Parvónia”...
Deixei para o fim um termo muito empregado na capital - “saloio”. “Saloio” tirou o nome do árabe açhroii, isto é, do campo, de fora da povoação, camponês.
Há, pois, a oposição entre o da cidade e o de fora dela; e daí passou ao significado de desdém dos urbanos para os do campo. No fim deste divagar, inspirado nas “trocas” e nas “andanças” populacionais, e no artigo de JLM (Desenvolvimento e Emprego), não quero deixar de dizer que, apesar das ironias, dos despiques, dos motejos e das depreciações das gentes das cidades ou das terras e regiões para onde vão (ou foram) trabalhar os “ranchos” ou os indivíduos migradores, uma coisa é certa: todos são irmãos no mesmo esforço do ganha-pão!

E muita vez os de fora vêm não só dar trabalho colaborante, mas trazer a própria Vida.

Sam, capelão de um fidalgo
Que não tem venda nem nada;
Quer ter muitos aparatos
E a casa anda esfaimada;
Toma ratinhos por pajens,
Anda já a coisa danada.”
(Gil Vicente, in “Farsa dos Almocreves”)

Carlos Fiúza
P.S. Eu próprio fui um trabalhador “migrante” (num Mundo sem fronteiras, como a minha casa). É verdade que um “migrante” de luxo (se o quiserem) … mas migrante!

quinta-feira, 10 de março de 2011

Daqui e dali... Carlos Fiúza

O “discurso” da dor

Além da vantagem de nos fazerem pensar que a vida são dois dias e que este edifício corporal que nos envolve tem de ir abaixo algum dia pelos serviços de urbanização da Câmara Universal, as doenças podem dar-nos, por vezes, outras vantagens inesperadas.
Por exemplo, a mim as doenças deram-me isto: assunto de interesse filológico-filosófico.
Venho, assim, falar da saúde e mais ainda da falta de saúde ou doença.
Escusado será definir saúde. Todos sabem o que ela é, e melhor a conhecem os que por ela aspiram e suspiram.
Saúde quer dizer, na essência, a salvação. A salvação de que? A salvação da vida, plena e feliz.
A saúde é a conservação da vida. O estado daquele que se encontrava salvus, isto é, salvo, inteiro, incólume do mal, são, era em latim salus.
Porque é que em português se interroga: “Como vai essa saúde?”. E porque é que se diz: “Boa saúde?”. Porque já no latim salus podia admitir o sentido de bom ou mau estado.
Quando falta a saúde, vem a chamada doença substitui-la.
Se há palavra triste, antipática, temida, essa palavra é doença. Feia pelo que traduz de multidão de males, cortejo de sofrimentos, rio de dores. A doença é como que a personificação do castigo de viver sofrendo.
Doença prende-se com dolens, dolentis, o que sofre, o que sente dor física ou moral.
Vemos assim que no português a palavra antónima de saúde, a doença, contem a ideia predominante de dor.
O nosso Luís de Camões que adjetivou a doença de “pálida”, falou da frialdade do seu toque e esta qualificação é expressiva:
A pálida doença lhe tocava
Com fria mão o corpo enfraquecia
.”
Estes versos camonianos (Os Lusíadas, III, 83) exprimem bem com duas simples palavras (pálida doença … com fria mão) toda a impressionante imagem do sofrimento que nega ou arrefece a vida.

E até se diz: “Boas melhoras”.
Indagarei: haverá melhoras más? Se são melhoras, a que vem o “boas”, com dizer-se “boas melhoras”?
De facto, o dito - Boas melhoras, se arrelia a arrelienta gramática, não arrelia a lógica e a triste verdade da vida, na qual há, de facto, - “boas melhoras” e há as melhoras falsas, ilusórias e, portanto, más.

Mas a doença toca a todos.
E, quando o esqueleto não é bem servido pelas carnes que o envolvem, em geral pede cama, para descansar, porque as forças escasseiam e a posição horizontal, terra a terra, é a mais cómoda.

Estamos doentes, dizem-nos… o País está doente.

Assim o soube pelo “discurso da dor” do Presidente do meu País…
…assim me foi dito que a “doença” minava esta minha Pátria.

Mas o que não me foi dito (mas que fingi ouvir) é que a doença que a todos nos corrói é só de corpo, não de espírito.

A maior riqueza desta vida é a saúde e a maior pobreza a doença.
Pois conservemos a riqueza da saúde espiritual, já que a material está cara muita vez.
Carlos Fiúza

quarta-feira, 2 de março de 2011

Daqui e dali... Carlos Fiúza

Símbolos, imagens e figuras

Todos quantos se interessam pela arte expressional escusam de se esfalfar a discutir transcendentes problemas de estilo, em ordem a descobrir qual a forma preferida para se traduzir o que se passa.
O remédio é simples - basta aprender no mecanismo das frases populares os verdadeiros segredos da expressão.
Ditos de todos os dias, de todas as horas, de todos os lugares onde se faz ouvir a fraseologia criada pelo génio verbal do povo, são excelente escola de arte da palavra.

Ao preparar-me para coligir estes apontamentos, uma “figura” me assaltou a mente:
- “Anda daí depressa, rapariga. Vê se te mexes. És mesmo uma morte em pé!”
Este “dito” recordou-me outra dição portuguesa, notável pelo arrojo da imagem, e de grande poder expressivo:
- “És boa para ir buscar a morte!”

Na língua portuguesa a fraseologia é dotada de uma grande variedade de processos de imaginação. São muitos os valores figurativos, e a todos os aspetos da vida foi buscar inspiração o génio expressivo do nosso povo.
Temos expressões e provérbios inspirados na observação da natureza, em usos e costumes, em filosofias práticas da vida, em todos os factos e ambientes que prendem a imaginação, a atenção, e traduzem a experiência que vem do Viver.
Para provar que assim é, não vou fazer, nem preciso de fazer, estendal de frases, ditérios, prolóquios, sentenças ou metáforas. Bastar-me-á comentar alguns casos, vindos ao meu espírito em acidental associação de ideias.
O olhar aspetos da natureza, o reparar em correntios factos, em frequentes situações - eis muita vez a fonte pura e simples da inspiração imaginosa.

Admire-se como deste facto bem simples - beber água, ou não a beber, por se desconfiar que é má - deste facto, repito, que pode ocorrer à beira duma fonte suspeita, ou ao pé duma toalha de água em sítio árido, forjou o povo uma dição admirável pelo símbolo transformador de situação física de encontro ou de presença de água, que se diz não beber-se, em situação moral de se ser obrigado a tomar resolução diferente. E com símbolo - “nunca digas: desta água não beberei” - se traduz imaginosamente um conselho de sábia prudência.
As relações de semelhança que o povo descobre entre o físico e o moral, o concreto e o abstrato quase sempre as sabe traduzir por meio de imagens, símbolos e comparações que pelo seu processo sugestivo, natural, claro e perfeitamente analógico bem podem servir de ensino à expressão artística dos mais elevados conceitos.
Admire-se, por exemplo, a propriedade com que se formula esta imagem de um dos mais conhecidos ditados do nosso idioma – “Quem semeia ventos colhe tempestades!”
Em primeiro lugar, note-se que “semear ventos” é já de si imagem feliz; mas a imagem ganha ainda mais valor porque se continua alegoricamente noutra, no mesmo plano, da simbologia agrícola, pois o semear intenta ao colher.
Mas, semeados os ventos, o que se irá colher serão tempestades.
A alegoria é modelar e perfeitamente ajustável à observação de que do semear do mal resultará o colher de mal ainda maior; do largar desenfreado do que tende para o rodopio de paixões resultará o entrechoque tempestuoso de situações violentas.
Note-se esta metáfora que a seguir pesco do linguajar de todos os dias; note-se como se caracteriza por uma natural, coerente e sugestiva analogia:
- “Não continues a pensar nisso, homem. É remar contra a maré”.
Não admira que um povo oceânico, como o português, haja em seu rol fraseológico muita dição inspirada na vida sobre as águas do mar, dição que nem sempre encontra paralelo nas outras línguas cultas.
Suponhamos um sujeito a buscar para si algo que a outros também interessa, mas que ele procura encaminhar principalmente em direção ao seu interesse pessoal.
A peripécia moral pode ser traduzida por esta dição magistralmente imaginosa - “Levar a água ao seu moinho”, paralela ao francês “faire venir l’eau au moulin”.
Ou, ainda - “Puxar a brasa à sua sardinha”.
Como se sabe, a imagem assenta na identificação dos elementos comparados.
Se alguém fala ou barafusta, prega verdades ou conveniências, e ninguém no ouve, a fraseologia popular fornece imagem precisa, expressiva, verdadeiramente plena de valor significativo - “Estar a bradar ou a pregar no deserto!”
Leve-se a ideia desta expressão à sua essência de significado, e aprecie-se-lhe a exatidão comparativa aplicada, a quem fala em vão, como aquele que em meio de infinita região despovoada se entregasse a vociferar de qualquer modo.

É, ou não, a fraseologia um belo e grandioso edifício desenhado pela imaginação genial do povo anónimo e a que os escritores vão dando grandeza com a sua arte, se ela não desdenhar desses esquemas da arquitetura expressional?

Carlos Fiúza

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Daqui e dali... Carlos Fiúza

O macaco e eu
Eis uma palavra (macaco) que, parecendo que não, pode envolver-se em mistério e também em interesse.
E digo isto, não porque pretenda engolfar-me no transcendente problema da origem das
espécies, para repelir a insinuação darwinista de o homem ser o último modelo da macacaria universal, mas porque pouco ou nada se sabe a respeito do seu nome, bem como a respeito da interpretação de uma ou outra locução em que entra.
Além destes mistérios, de que falarei daqui a nada, o macaco oferece, para consideração, a sua presença em vários jeitos de semântica. Ajunte-se a isto o haver ditos de cunho português, como aquele que um dia causou um formidável assombro linguístico a certo amigo meu, americano, a quem informei que o “I´ll be shot” da língua inglesa se traduz por “macacos me mordam”.
Macacos me mordam, se percebo isto”, eis uma frase idiomaticamente portuguesa, capaz de atarantar estrangeiros e que desafia o mais pintado filólogo a documentar-lhe o nascimento.
Se me dão licença, eu até vejo na palavra “macaco” um documento afirmativo das nossas precursoras andanças em terras do Antigo Continente e do Novo Continente.
Parece cómica esta afirmação de o “macaco” ser um documento provador de nossa prioridade europeia no trato com macacos em selvas africanas e americanas. Mas é assim mesmo. E, se não, vejamos.
Quanto à origem da palavra “macaco”, só há hipóteses. Nasceu o nome em África, nasceu na América do Sul? Na Guiana, em Madagáscar, no Congo (como parece mais provável)? Mistério.
Pelo glossário de afro-negrismos do brasileiro Fernando Ortiz, aprende-se que “macaca” é palavra afro-negra com o sentido de “fantasma” e, por extensão, desgraça, morte por assombração e infortúnio.
Esta explicação não está mal pensada. Mas duvido dela, porque, o sentido vernáculo da expressão é, como se lê numa das edições de Morais, ”morrer de morte violenta e apressada”.
Ora, a pressa não dá tempo para a gente ver fantasmas, assombrar-se e morrer, em seguida, de modo desastroso.
Pendo mais para a seguinte explicação que formulo com o mesmo direito com que os outros formularam suas hipóteses.
- A desgraça não agrada a ninguém, e todos a acham horrível, feia.

Toda a gente sabe que a palavra “macaca” não só designa a fêmea do macaco, mas também designa “mulher feia”.

Fácil é, pois, que à “desgraça”, à “má sorte” se chame “macaca” quer, nos longes do tempo, isto seja, ou não, inspirado no sentido de fantasma que macaca haja em linguajares africanos.
O povo português diz “estar com a macaca” a referir que se está em companhia da mofina, com sorte azarenta. Ora, entre esta expressão “estar com a macaca”, isto é, com a infelicidade, e “morrer de morte macaca”, isto é, morrer por morte infeliz, suponho toda a gente ver comigo a relação semântica.
Morte macaca” deve pois, a meu ver, interpretar-se como aquela morte desastrosa, apressada ou inglória, que a “macaca”, isto é, a “má sorte” originou.
Macacoa” dizem os dicionários modernos ser uma doença sem importância.
Mas quem abrir velhos dicionários, como o de Morais ou de Vieira, terá “macacoa” no sentido de “doença grave”.
Ora, o sentido inicial de doença grave, atribuído a “macacoa”, reforça a semântica de infelicidade que se vê em “estar com a macaca” e em “morrer de morte macaca”.
Aprende-se na Zoologia que os macacos do Antigo Continente (gorila, chimpanzé, orangotango e gibão) apresentam carateres análogos ao homem, donde o nome de antropoides, isto é, semelhantes ao homem. A palavra orangotango (ensina, por seu turno a Filologia) vem de elementos malários com o significado de “homem dos bosques”. Isto, do ponto de vista estritamente zoológico, não tem contestação, pois o homem e o macaco ficam de braço dado na
ordem dos primatas, isto é, os primeiros na classificação dos mamíferos.
Sabe-se que os antropoides são astuciosos e maus, embora sociáveis. Desta sociabilidade manhosa e, por vezes, cruel veio, por exemplo, o dizer-se que fulano ou sicrano é “macaco”, ou, antes, é um “grande macacão”.
O conhecimento da esperteza maldosa macaqueira deu origem a ditos como o português “ladino como um macaco”, ou como o francês “malin comme un singe”.
A imitação é muito da psicologia antropoide (e tenham a bondade de desculpar o termo psicologia aplicado com generosidade).
Não é só em português que se diz “macaquear”, ser “macaco de imitação”, etc. Nas demais línguas os vocábulos correspondentes envolvem o mesmo sentido.
Ora eu vou ao dicionário latino de Quicherat e vejo que, já no latim de Séneca, aparece a palavra “simius” a referir “imitador”, e em outros dicionários latinos regista-se de Horácio a mesmíssima aceção para o mesmíssimo vocábulo.

Seriar frases como “vá pentear macacos”, “vá bugiar” (de “bugio”, isto é, macaco da cidade argelina de Bugio), discutir étimos para saber se “mono”, por exemplo, vem do persa ou do turco ou grego, ser-me-ia ainda possível. Mas afastava-me do meu intento, qual o de, após ter vincado a portuguesidade do vocábulo “macaco”, referir a contribuição dada pela macacaria à semântica portuguesa e também estrangeira, antiga e moderna.

Cumpre-me fazer ainda a devida referência ao venerando equivalente “mono”.
Também, aqui, se verifica a utilização do termo como tradutor de processos humanos de esperteza: “pregar o mono”, por exemplo, isto é, enganar, iludir, lograr.
Como se sabe, os macacos nos anos tardos da vida caem num marasmo neurasténico, que serviu para qualificar o seu “camarada” na ordem zoológica, o “Bicho Homem”, quando este é de poucas falas, macambúzio.
Assim se explica a utilidade do termo expressivo “mono” para mencionar os quietos em demasia.
E até os livreiros e outros comerciantes aplicam a palavra a referir coisa que não se vende e fica em armazém como se fora um “mono”.
Que mais dizer de macacos, nesta digressão pela etimologia e pela semântica?
Guardei para o fim uma curiosa dúvida que merece, pelo seu pitoresco, encerrar a semântica macacal:

- Não será este escrito um caso grave de “macaquinhos no sótão”?

Carlos Fiúza

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Daqui e dali... Carlos Fiúza

O ressurgimento dos apólogos

O grego “apólogos” e o latim “apologus” significam narração, e por vezes o apólogo coincidia com a fábula.
De modo geral, o apólogo é uma narração alegórica, necessariamente fictícia, e geralmente com processo dialogal.

Os apólogos dialogais não “estafados” (como os de D. Francisco Manuel de Melo) são verdadeiramente teses, expostas com leveza, com graça, com interessantíssimos jogos de palavras, trocadilhos e outras figuras de estilo.
Em os “Apólogos Dialogais”, este Autor, com uma técnica dialogal de estupenda flexibilidade pensante, põe em conversa os próprios seres inanimados, como, por exemplo, dois relógios falantes.

Vou ao Dicionário de Sinónimos de Fonseca e Roquette e encontro:
“Alegoria é palavra grega “allegoria” (de “állos”, outro, e “àgoréyo”, eu digo) e designa uma figura de retórica pela qual se apresenta ao espírito um objeto e designa outro”.

Como exemplo disto mesmo, tome-se o sermão de Santo António que o Pe. António Vieira pregou…
… é uma longa e engenhosa alegoria, na qual ele diz aos peixes o que para os homens deveria ser dito!

A alegoria não necessita explicar a verdade que encerra, pois a exatidão de suas relações com ela se manifesta a cada passo, distinguindo-se nisto do apólogo, cujo mérito é ocultar o sentido moral até ao instante mesmo da conclusão que se chama moralidade.

Acrescentarei que o apólogo recorre à prosopopeia, isto é, à transformação figurada de seres inanimados, de abstrações, de conceitos de espírito em pessoas, em seres inteligentes e ativos.

Azeite em Trás-os-Montes, sempre… apólogos, nunca!

Carlos Fiúza

P. S. “Honni soit qui mal y pense”.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Daqui e dali... Carlos Fiúza

A “auga” dos senhores deputados

Há vocábulos que têm mais sorte do que outros.
Um infeliz é por exemplo auga.
Auga tinha tanto direito a ser admitido na língua normal como os joelhos que mataram os antigos geolhos.

Água é dição mais difícil, isto é, menos fluida (já agora que se trata de fluido) do que auga. Esta custa menos a dizer, e, se não, façam o exercício glótico.
A coisa complica-se, empregando-se o articular: a água. Os dois a a formam hiato, como quem diz, abertura demasiado da boca: a água.
O Povo que não gosta de abrir a boca esforçadamente (obedecendo ao princípio psicofisiológico do menor esforço), resolve o caso e deixa correr a auga.
Metátese criticável?
Por enquanto, sim. Mas quem sabe se um dia a auga não virá a ser tão natural como os joelhos e a água tão esquisita como os antigos geolhos?!
Chi lo sa?

Faço advertir que a forma auga, tão vilipendiada, já estar vitoriosa em augar e ougar (que às vezes até se diz ògar).
Na verdade augar, ougar e até ògar mais não são do que resultantes da metátese de água. Portanto, a auga aqui está por cima, porque corre escondida numa forma derivada, cujo tema (auga) não vem à lembrança de quem fala naturalmente.

A metátese auga por água é, como se sabe, popular; porém, não só popular, é antiga na língua, e tal antiguidade e insistência de fenómeno fazem pensar que um dia virá a prevalecer auga a água.

- Dá mais um bocadinho de “bolo” ao deputado, que já está a augar. (Que é como quem diz: está-lhe a crescer água na boca).

Carlos Fiúza

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Daqui e dali... Carlos Fiúza

“Faladrar”

Uma mulher do povo disse a seguinte frase:
Que estás tu a faladrar, meu pengo?”

O que deu origem àquele dito foi qualquer resposta malcriada dada por um rapazinho, quando ela o censurava por estar a castigar um irmãozinho mais novo.

Faladrar” - queria dizer “falar”, como se se referisse a “ladrar” com intenção de ofender o rapaz?
E “pengo”, será o mesmo que “atrevido”, “maroto”, “mariola”, etc. ?

Faladrar” pode arrolar-se nas figuras de dição.
Figuras são modos de dizer que intentam valorizar a expressividade.
Figuras de dição, aquelas que por meio de alterações fonológicas ou morfológicas concedem aos vocábulos novos aspetos de significação, relacionados com os próprios, mas acrescidos de algum valor acidental.

Ora, entre as figuras de dição podemos incluir os “trocadilhos”.
Os “trocadilhos”, como o nome indica, são “trocas” fonéticas em vocábulos de som parecido ou semelhante, os quais vocábulos se aproximam para o estabelecimento de contrastes, equívocos, graças, etc.

O trocadilho “faladrar” consiste no aproveitamento de duas semelhanças: a 1.ª entre a sílaba comum a “falar” e a “ladrar” (o la); a 2.ª entre o desabafo vocal do homem e o dos cães.

Este “trocadilho” de “faladrar” vale também pelo recurso à aliteração.
Mas o seu mérito expressional está sobretudo nisto: a pessoa que ofende outra, dizendo que ela está a “ladrar”, não deixa de travar a ofensa, amortecendo o insulto com a concessão da sílaba inicial de “falar”.

Quero dizer: a pessoa que por qualquer modo mais parece “ladrar” do que “falar” é insultada, dizendo-se que não “fala” nem “ladra”: mas que “faladra”.

Faladrar” torna-se, pois, uma espécie de insulto semieufemístico.
Meu pengo” é meu “pateta”, meu “parvo”.
Suponho o vocábulo “pengo” relacionável com um outro, de largo uso no Brasil - capenga, também sinónimo de pateta

Por muito respeito que tenha pelo autor do presente artigo (denegrindo mais o “cargo” do que a “pessoa” que se pretende atingir), pergunto:

- Será este um exemplo típico de um texto “faladrado”?

- Será que, tal como a cor das uvas, o “falar” e o “ladrar” andam de mãos dadas?

Carlos Fiúza

sábado, 6 de novembro de 2010

Daqui e dali... Carlos Fiúza

Newton e a credibilidade das cores

Para começo do que vou dizer, torna-se necessário relembrar que, depois das experiências de Newton, ficámos a saber que os corpos têm a cor dos raios que difundem ou refletem.
Assim, um corpo é amarelo se absorve todos os raios menos os amarelos; é vermelho se não absorve os raios vermelhos; azul, se a absorção dos raios azuis deixa de se realizar.
Compreende-se porquê: os nossos olhos, se não forem daltónicos, captam os raios que os corpos não absorvem e, portanto, refletem.
Convém ainda acrescentar uma coisa que já se deixa ver, e é que, se um corpo refletir duas ou mais cores, absorvendo as outras, a cor será composta pela mistura das cores difundidas.
Falta dizer que o branco é composto pelas sete cores – o vermelho, o alaranjado, o amarelo, o verde, o azul, o anilado e o roxo.
Por outro lado, a gente aprende na Física que um corpo que absorve todas as cores e não difunde nenhuma tem a cor preta. E, se fôramos rigorosos, devíamos considerar que o preto não é “cor”, porque preto é rigorosamente… a ausência da cor.

Vem muito a propósito adicionar aqui este problema colorido:
Tenho sobre a mesa uvas brancas e pretas. Sendo que, verdadeiramente, as uvas brancas são… amarelas e as pretas… azuis”, quais são as “brancas”… e quais são as “pretas?”.

Será este o “problema” do nosso “celebrado OE2011”?
Será que, tal como as uvas, o OE tem duas (ou mais) cores?
Será que onde alguns veem branco, outros veem preto e vice-versa?
Será puro “daltonismo”… ou “política” na sua expressão mais baixa?

Será que os “mercados” veem tudo preto (sem qualquer laivo de branco) … ou veem tudo branco em “preto carregado”?

Obrigado, Newton! Quão esclarecedora (e oportuna) foi a tua descoberta!

Carlos Fiúza

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Daqui e dali... Carlos Fiúza

Cortesia, civilidade e etiqueta

Apesar de abundarem os livros de “Civilidade e Etiqueta”, não se pode dizer, em boa verdade, que a cortesia, a correção, a polidez, a delicadeza ou, melhor, a educação coletiva esteja em grau elevado nos nossos tempos.

Crise de moral, destrambelhamento dos nervos pelas dificuldades da vida presente? Não sei; talvez uma e outra coisa.
O que sei é que as expressões de cortesia estão a rarear, não por culpa do idioma, que nelas é fértil, mas por culpa dos falantes.

“A inducação é muito linda”, dirá alguém menos alfabetizado…

Educação”, “educado” são palavras que, embora assim adulteradas, mostram, no entanto, que até o homem de rudes maneiras avalia ou aceita como alta virtude a alimentação do espírito nos princípios sãos da moral.
Sim, porque educatio vem de “educo”, cujo sentido é - alimentar, cuidar de.
Os Latinos à educação, à polidez, à cortesia chamavam-lhe “humanitas” (humanidade), querendo dizer que o correto procede como um homem deve proceder, e não como um bruto.
Também nós cá, em Portugal, noutros tempos chamávamos vilão ao da vila, rústico, e daí - grosseiro, etc.
E cortês, cortesia vem da velha ideia de serem os da corte, ou dela frequentadora, pessoas de boas maneiras.

Eu não discuto agora a alta questão do desnível entre a “delicadeza” da cidade e a “rudeza” do campo.
Mas sempre direi que na gente aldeã tenho encontrado muita criatura útil à civilização citadina.

Tudo o que neste mundo se usa está sujeito ao gasto. Ora, as expressões de cortesia, como tantas outras, caem muita vez no mecanismo de frases-feitas, de verdadeiros estribilhos sem realidade de significação.
Mas isto é universal!

Vem todo este arrazoado a propósito do recente (e triste) espetáculo que nos foi oferecido (em direto) na Assembleia da República aquando da discussão do Orçamento para 2011.

Quando algum analfabeto deixa fugir, na fluência oral, deturpações como “fazerei”, “menza”, etc., são desvios fonéticos e morfológicos explicáveis; quando alguém diz “a gente vamos” em defensível sintaxe, criticada, todavia, pelos gramáticos feros; quando alguém profere deturpadamente “tisoira” por tesoura; quando se nota um desmando qualquer à linguagem tida por modelar, as chamadas pessoas cultas (como os deputados o deverão ser), deveriam reagir, criticando e, às vezes, até parodiando os pecadores venais. Mas é assim? Claro que não!
Quando no “salão” mais nobre do nosso país, os “dignos” representantes de um povo se permitem usar da linguagem mais baixa, mais torpe, mais inquinada - “calças na mão” é só um exemplo (não contando “palhaço” e “burro”) - então como querer que o País os aceite?

Se os que erram por compreensível ignorância recebem crítica, também os que erram por desleixo, por teimosia ou por falsa cultura merecem o azorrague da crítica; merecem vir ao pelourinho espiar as culpas do desrespeito ao civismo, à educação.
A expressão política continua uma lástima. O erro campeia, ou antes, corre infrene pelos campos da expressão.
Os vícios da expressão, pela sua ubiquidade, são tão inabarcáveis que um homem só não dispõe de tempo nem de nervos para os considerar.
É possível que as minhas palavras desagradem aos apologistas do erro e aos preguiçosos da cultura portuguesa que supõem não ser preciso pôr cobro energicamente à viciação da linguagem pública.
No entanto, e apesar de provado até à náusea a falta de “cultura”, a pretensa “civilidade”, a pouca “cortesia” da nossa classe política… temos de viver com o que temos!
Mas choca-me que um “líder” parlamentar, desrespeitosamente se dirija a um seu par com: “os senhores foram apanhados com as calças na mão!”.
É quase inacreditável! É, no mínimo, deselegante… a nossa democracia não o merece, como o não merece o Povo que neles votou!

No fim destas considerações não fique a julgar-se que elas sejam qualquer apologia de palavrinhas doces, muito impostoramente gentis. O intento deste escrito é o convite sincero para se reparar na alma das palavras que, de tanto se empregarem, já pouco significam ou já raramente se usam, o que é pena, pois com elas, se formos sinceros, poderemos tornar os encontros da fera humana muito menos incómoda.

Carlos Fiúza

Daqui e dali... Carlos Fiúza

"Medidas"

As palavras são um espelho admirável do caminhar da civilização, dos processos humanos, das conquistas da ciência, enfim desta ânsia de perfeição que o “bicho” homem abriga em seu peito.
E, se não, vejamos o que tem acontecido com as “medidas”.

Desde que o mundo é mundo, para se avaliarem as grandezas físicas, faz-se mister “medir”, isto é, comparar aquilo que se quer avaliar com outra grandeza ou quantidade arbitrária, que serve de termo de comparação.

Na primitividade, o homem queria “medir”? Pegava numa vara, e “media”. Reminiscência disso: a vara, medida antiga medida de comprimento, itinerária e também de superfície.

Outro processo que o primitivo homem usava era recorrer ao próprio corpo e dele tirava a forma de “medir”.
Media com os pés? Disso é prova o “” das medidas de comprimento e itinerárias.
Media com as mãos? Disso é prova a “polegada”, mais ou menos o comprimento da segunda falange do polegar.
Media com os cotovelos? Demonstra-o a palavra “côvado”, do latim “cubitus”, cotovelo.
Media com os braços? Aí tínhamos as “braças”.
Media com as palmas? Lá estavam os “palmos”.
Media a passo? Por isso se dizia “passo” a medida de 5 “pés”.
A própria milha nos pode fazer regressar o espírito à primitividade de processos de medir, pois “milha” (em latim millia) era correspondente a mil passos.

Tão arbitrárias têm sido as grandezas comparativas, ou as unidades, que os homens não descansam em modificações, ajustes e reajustes.

Pois bem… alguns “aprendizes de cientistas” (leia-se Associação Sindical de Juízes) já pensam, AGORA, em fabricar novos padrões comparativos!

Se assim for, o “metro”passará a ser uma velharia, tão velha como as antigas medidas são hoje, para muitos de nós, curiosas recordações.

Esta notícia de que a “Física” de amanhã pode vir a precisar de pôr de parte as medidas de hoje não está assim tão longe da realidade…

BOYS” e “JOBS” poderão vir a ser o futuro como “MEDIDAS” da nossa sociedade?

Seria talvez um regresso à “bitola” do homem das selvas.

Carlos Fiúza

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Daqui e dali... Carlos Fiúza

Evolução e Despersonalização

Disse Herculano:
A Pátria… é a oração ensinada a balbuciar por nossa mãe, a língua em que pela primeira vez ela nos disse: - meu filho!” (Lendas, II, 195).

Meditando nesta afirmação de Herculano, eu pergunto: Ainda seremos Portugueses se amanhã todas as mães de Portugal passarem a imitar aquelas que já hoje dizem aos filhos: “Meu bijou!”?
E será Portugal ainda português, quando as noivas da nossa Terra, imitando as apaixonadas estrangeiras, disserem, todas: “My darling!”?

Lamento profundamente ver-me obrigado por um sentimento de amor à minha Pátria, a de vez em quando sermonear amargamente contra os meus irmãos portugueses, desrespeitadores, indiferentes ou descrentes da nossa Moral, da nossa Honra, da nossa Cultura, símbolos reais da nossa independência.

Mas poder-se-á deturpar o indeclinável dever de reagir em defesa da Honra, da Vergonha, da Verdade?

Na nossa Terra (tão propícia a descobridores) descobriu-se de há tempos a esta parte um estribilho muito acaciano com que se procura desculpar a estragação da Moral.
O estribilho canta assim: “A Moral é um organismo em evolução.”
Com tais palavras, tão genialmente descobertas, se pretende matar os poucos pregadores da Moral em expressão.
A libertinagem não se desculpa com o progredir dos aspetos sociais; pede uma reação enérgica de quem preza os direitos da cultura de um Povo.
Paralelamente, a ignorância ou a anarquia que pretenda justificar a despersonalização idiomática, mediante a distinguível lembrança da “evolução”, deve ser combatida pela verdadeira noção científica do processo natural, que nada tem que ver com a estragação escuidada.

Vítimas inocentes bebem nos jornais os vícios da expressão, e mal sabem que se lhes instilam os defeitos com a leitura desprevenida.
Indiferentes, algo culpados, parecem dispostos a abdicar dos direitos da nossa consciência.

Desorientadores opiniáticos recorrem ao estratagema de atribuir à “evolução” e à descabida frase-feita de que o povo “é quem elabora a língua” a explicação e a manutenção dos vícios destruidores.
Mas é muito superficial a opinião falsa dos que recorrem à “evolução” para legitimar a estragação atual.
Não reparam em que os tempos agora são outros.
Há contactos mais profundos entre os povos; a interpenetração das culturas apresenta-se bem pronunciada; as comunicações, mais velozes, quase neutralizam fronteiras; os ares trazem vozes estranhas, que os nossos recetores espalham pela intimidade do lar.

Nesta hora e nas outras que hão de vir as modificações, todas as modificações, não se efetuarão com aquele moderado andar de muitos e muitos séculos, se a intercomunicação dos idiomas se desenvolver com o predomínio de duas ou três línguas universais.

Carlos Fiúza