O concelho começou por ser profundamente rural.
As entidades públicas, durante muito tempo, pouco ou nada ligaram às necessidades das populações. Estas viviam mansamente a cuidar das suas hortas, das suas poucas árvores, dos seus baldões, a arrancar as ervas e a limpar as paredes.
Sair da terra era uma aventura muito difícil de encetar. E se as pessoas eram felizes, contando com a amizade dos vizinhos e, sobretudo, com o relacionamento íntimo com as suas duas ou três figueiras, as suas videiras malvazias, bastardas ou mouriscas, a sua pereira, os pessegueiros (dois ou três), as suas couves, as suas disputas de extremas, de passagens e de águas…, para quê querer mais?
Tudo corria no melhor dos mundos e o Estado escusava de se preocupar pois as populações tudo resolviam: as derrocadas, os incêndios, o arrancar dos dentes, o tratamento de todas as doenças, até as provocadas por espíritos malignos. Nesta vivência, tinham a ajuda preciosa do Sr. Pároco (para os exorcismos), do Sr. Professor (para escrever cartas ou ajudar a tratar assuntos na vila), do Sr. Regedor (para impôr a ordem ou resolver alguma contenda).
Mas como a felicidade, melhor, a paz não dura sempre, vieram os espíritos irrequietos (irrequietude provocada pela ida à guerra lá longe em África) a lembrar que, a salto, se podia, nesta vida, chegar ao paraíso - a França.
As notícias vindas da estranja desestabilizaram tudo: - narravam abundância, exibiam-na … e foi a inquietude. Os proprietários começaram a sobressaltar-se: começou a faltar mão-de-obra e tiveram que gastar o pouco dinheiro que tinham em maquinaria (motores de rega, tractores) para resolver os problemas.
Mas a hemorragia não estancava.
Entretanto, os poderes públicos acharam por bem começar a assumir algumas tarefas para melhorar as condições de vida e para substituir as pessoas que iam faltando. Chamaram a si a electrificação, o saneamento, a abertura de estradas e caminhos, o combate aos incêndios, eu sei lá…
Ultimamente, até foram construídas duas piscinas (de água fria e quente), um centro cívico, uma biblioteca, polidesportivos nas aldeias. Tudo o que os poderes públicos achavam que lhes competia fazer, fizeram-no.

No entanto, a economia, que pertencia ser desenvolvida pelos particulares, permaneceu sem grandes alterações. Como os terrenos deixaram de ter, em termos actuais, rendimento, começaram a ser abandonados. Proliferaram o desleixo, o abandono, os incêndios. Claro que há honrosas excepções: as dos velhos que ainda podem trabalhar eque insistem em fazer as coisas à moda antiga.
A luta entre a modernidade e o conservadorismo agudizou-se e não ganhou nem aquela nem este.
Hoje há uma disputa entre os que defendem um ruralismo que mantenha tudo o que pode ser mantido da paz antiga e os que entendem que por métodos totalmente novos se pode construir a sociedade de futuro, aproveitando ao máximo a tremenda evolução tecnológica entretanto verificada.
O ruralismo é defendido sobretudo pelos velhos, mas estes já não têm força para nada.
A modernidade é defendida pelos novos, mas faltam-lhes as rédeas da parca economia existente, porque os velhos continuam a mandar, e porque ao mais leve pretexto vão-se para outras paragens.
Neste impasse, há quem descubra que fazer as coisas afinal não pertence às pessoas mas sim aos poderes públicos. Se estes quiserem, podem desenvolver o concelho independentemente das populações. O Estado é que deve resolver tudo. As pessoas, que eu julgava defensoras da iniciativa privada, começaram a defender a intervenção do Estado por tudo e por nada.
Mas não é essa a doutrina que agora predomina - é esta: - As pessoas fazem, o Estado ajuda, controla e complementa.
E o que agora está em causa, para a sobrevivência do concelho, é a criação de largas centenas de empregos, para que a população cresça e justifique a manutenção da autarquia.
De contrário, se nos outros concelhos acontecer o mesmo, de acordo com os novos métodos de racionalidade da governação, restarão quatro ou cinco concelhos a nível distrital.
Mas vamos ver em que sectores poderá haver aumento de emprego.
Na agricultura e pecuária, não parece, pois o que vier a ser feito há-de sê-lo por maquinarias, automações, racionalidades, que requerem pouca gente.
Na indústria, também não será. Mesmo que a câmara dê terrenos, isente de impostos, construa infra-estruturas, não sei que indústrias significativas irão aqui ser implantadas, sendo certo, por outro lado, que as fábricas hoje também não precisam de muita mão de obra.
Provavelmente, só nos resta o sector dos serviços, coadjuvado pela construção: - passeios pedonais e motorizados, desportos náuticos, aproveitando o Douro, águas termais, fomento da construção de pequenas quintas e casas de férias.
Abrilhantar alguns cabeços não chegará.
Será preciso aproveitar as águas de São Lourenço, o clima privilegiado da beira - Douro, as ruínas do Castelo.
E, por exemplo, preparar as infra-estruturas para a construção (por quem queira), com todas as condições modernas, de casas para férias em aldeias turísticas no Tua e na Senhora da Ribeira.
A constituição de pequenas quintas nas encostas do Douro parece-me acertado, mas há tanta gente a defender duma forma tão fundamentalista o património mundial que o Douro agora constitui que não sei se será viável esta hipótese.
A junção de desportos náuticos, radicais ou outros pode vir a dar azo à construção de hotéis.
Tudo isto exige muito investimento privado.
À câmara compete, e não é pouco, fazer publicidade, preparar infra-estruturas, dar facilidades burocráticas.
Que mais ela poderá fazer?
Que acontecerá se não conseguirmos investimentos de todo o género e feitio?
Os velhos morrem, os novos vão-se embora e os que partiram não regressam.
A população diminuirá para 4000, 5000 habitantes. E talvez deixe de ter razão de ser a existência de uma câmara autónoma.
Desaparecendo a câmara, a população diminui para 2000, 3000 pessoas.
Nada é eterno. Há que estar atento às mutações e tomar medidas, se for possível tomá-las.
Pode ser que o problema até só se resolva com teleféricos, helicópteros ou coisas mais ousadas.
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João Lopes de Matos
Fotos Rui Lopes in Ansiães Aventura


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ResponderEliminarObrigado por esta resenha histórica.
ResponderEliminarAcontece que algumas instituições que existem para servir, eleitas por nós e ao nosso serviço, não o fazem. Infelizmente (será uma questão cultural?), as pessoas que ocupam posições de relevo nessas instituições, usam óculos coloridos e vêm as coisas às "cores", preocupando-se mais com a sua sobrevivência do que com o bem estar geral.
A preocupação com o bem comum é raro, ninguém trabalha por amor à camisola ou por vocação.
A questão se é melhor um conjunto de autarcas que hibernaram há muito, ou nenhum, o diabo que escolha. Parece que estamos condenados a imigrar todos para o litoral e esperar que o governo nos sustente, porque aqui estamos a dar muita despesa.
Bota pa lá Carrazeda...
O meu amigo parece querer responsabilizar os privados do nosso atraso ao relegar a tarefa do poder para segundo plano.
ResponderEliminarMas apontemos para as termas de S. Lourenço.
Como penso que saberá um privado fez em Pombal e porque foi incentivado a... um investimento de cerca de 700.000 Euros ( Hotel Rural ) na perspectiva do desenvolvimento das termas. Recorreu a projecto mas agora vê-se " grego " para pagar a sua parte porque as termas continuam à espera!
É apenas um exemplo de que podemos retirar várias conclusões.
Não percebo como o Dr. quer que um privado invista o seu dinheiro no caso no n/ concelho, se os politicos não acenam com nenhum projecto CONCRETO de desenvolvimento.
Se é turismo e aqui estou de acordo consigo como quer que eu invista milhões de euros em recuperação de casas nas aldeias ( ex.) se depois nada mais tenho para lhes oferecer porque nem que quizesse não podia.
Continuo a entender que a primeira vontade deve ser a do poder politico como um dos pilares de desenvolvimento chamando a si os privados ouvindo-os e após o seu compromisso arrancar para vários projectos de desenvolvimento credíveis.
De outra forma o caso do investimento em Pombal e Vilarinho são ( foram )puras miragens.
É que os grandes grupos financeiros ligados à imobiliária não dormem. Se dependesse só deles isto já era uma maravilha.
Desiluda-se.
Amigo da Terra.
Caro amigo da terra: Gostei muito do seu comentário. Vê-se que, ao contrário de mim, vive dia a dia as dificuldades de fazer seja o que for.Como acho que é muito difícil os poderes públicos fazerem o que, do seu ponto de vista, deveriam fazer, o mais provável é que nada seja feito. No caso do São Lourenço, que poderá ser feito pela câmara, além de todas as infra-estruturas necessárias aos investimentos privados? Quando muito, construir o complexo termal. Que não é fácil vê-se no facto de tudo ser prometido e nada ser cumprido. O que me parece certo é que ,se não forem criados muitos empregos, o concelho desaparece.
ResponderEliminarNem mais caro dr.
ResponderEliminarA Câmara que crie as infra-estruturas e o resto virá certamente por acréscimo... no caso em que falamos.
Relativamente às promessas.
Quando lhe prometem algo e não cumprem o que é que o Dr. pensa do incumpridor?
Acho que a seriedade e a honestidade dos politicos e de todos nós cai por terra a partir do momento em que não cumprimos o que prometemos.
Neste aspecto não há politico sério nem honesto e vejamos:
Durante as campanhas são eles ( politicos ) que nos prometem, falam pelos cotovelos ... mas são os mesmos que depois nem sequer nos informam dos motivos porque não fizeram.
Isto não é sério.
As termas de S. Lourenço são um bom exemplo de falta de seriedade politica com a agravante de agora estarem comprometidas com a construção da barragem.
Agora pergunto:
Quem devemos meter na cadeia? Porque eu acho que caso as termas não consigam sobreviver trata-se de um verdadeiro crime público.
Obrigado dr.
Amigo da Terra