sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Daqui e dali... Alzira Lima de Jesus

PENSAR…DIFERENTE: PROCESSO CRIATIVO

Por que coabitamos com o obstáculo quotidiano de
«pensar diferente»?
Julgo que esse processo tem início,

em 2º lugar, no próprio sistema educacional: fomos sendo "exercitados"
(entre aspas, porque, no fundo, não era um exercício: este, estimularia à acção…),
a procurar simplesmente uma resposta para cada realidade:
o certo ou o errado.
O imperativo era memorizar, nunca questionar! Jamais pensar em alternativas! O saber era «doado», logo, seria nosso dever aceitá-lo (e agradecer!).
Ora, sem o poder da questionabilidade, nada progride: perdemos a oportunidade de obrar a nossa criatividade no sentido da produção de alternativas, de opções, de novas ideias.

Em 1º lugar, num sistema educacional mais restrito: o núcleo familiar. Ao ouvirmos dos mais velhos «porque sim» ou «porque não», o nosso crescimento num ambiente resistente, inflexível e fechado, vê-se comprometido sem a oportunidade de desdobrarmos a nossa criatividade.

E tal acontece em qualquer tipo de organização social: família, escola, empresa, grupo de pares, sempre que haja (e sempre há) uma relação de hierarquia . (Note-se: eu disse hierarquia que é necessária, e não anarquia…). O papel do líder é importante, desde que bem desempenhado: é um orientador. Só não pode ser opressor. Senão, irrompe o medo de errar… e a impossibilidade de criar, improvisar, desenvolver. Marca-se a passividade, a omissão…

É certo que só quem faz erra… logo, os omissos nunca erram. O erro que acarreta a punição deve ser diferenciado: os erros de experiência, tentativas não devem ser punidos, muito menos ridicularizados: comparece aqui o líder: orienta! Não é o mesmo que errar por negligência.
Estimulemos a criatividade, a autoconfiança, a capacidade de experimentar! A crítica…edificante! O debate à sua volta!
Concedamos o direito do estímulo! Sejamos capazes de motivar!

Alzira Lima de Jesus Castro Pinto

5 comentários:

  1. Estou de acordo consigo: - Deve ser estimulado o pensar sempre pela própria cabeça. Quando se percebe alguma asserção, deve ser demonstrado que se percebeu. Quando se discorda ,deve ser bem explicado porque se discorda e bem explicada a posição diferente. Um mero sim ou um mero não - não é nada . Teimosia pura (porque sim, porque não) também não interessa a ninguém. É necessário estimular a necessidade e o hábito da explicitação. - A hierarquia é uma exigência duma sociedade organizada. A obediência é também um pilar da sociedade. Uma e outra, porém ,postas em prática sem bom senso, sem clarividência, dificilmente serão justificáveis.

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  2. alzira,

    claro que o pensamento crítico é o motor da sociedade. Mas fica difícil no interior de um país em que todas as instituições apenas gostam de ouvir as quadras da Dona Flora para a Rádio Ansiães ou o bota-abaixo em caminhos esconsos, levado a eito por outras doninhas. Entre a lua e o subsolo, pouco-nada...
    Como sabes, quando tentei ajudar a reflectir um grupo, de tão habituados nos dois radicalismos, entre um sim e um não, absolutos, nem conseguiram ler os aspectos positivos que apontei.
    Depois, também fica difícil, como num verso d’ "O navio de Espelhos" de Mário Cesariny, se a nave ‹‹vista do movimento dir-se-ia que pára››.

    vitorino almeida ventura

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  3. Vitorino,

    Mário Cesariny de Vasconcelos também diz:

    «O navio de espelhos
    não navega, cavalga (…)

    O que fazer?
    Cavalgar…esquecer que se navegou sem porto de abrigo!

    (…) Quando chega à cidade
    nenhum cais o abriga» (…)

    E continuar as ondas até que nos levem à praia.
    De certeza que existe essa praia!

    Alzira Lima

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  4. Muito bem, Alzira, claro - até porque o navio de espelhos é ele-mesmo a humanidade...

    E só nos resta continuar (a tentar, cumprindo) Mário Cesariny nesse mesmo Navio de espelhos:

    O navio de espelhos
    não navega cavalga
    Seu mar é a floresta
    que lhe serve de nível
    Ao crepúsculo espelha
    sol e lua nos flancos
    Por isso o tempo gosta
    de deitar-se com ele
    Os armadores não amam
    a sua rota clara
    (Vista do movimento
    dir-se-ia que pára)
    Quando chega à cidade
    nenhum cais o abriga
    O seu porão traz nada
    nada leva à partida
    Vozes e ar pesado
    é tudo o que transporta
    (E no mastro espelhado
    uma espécie de porta)
    Seus dez mil capitães
    têm o mesmo rosto
    A mesma cinta escura
    o mesmo grau e posto
    Quando um se revolta
    há dez mil insurrectos
    (Como os olhos da mosca
    reflectem os objectos)
    E quando um deles ala
    o corpo sobre os mastros
    e escruta o mar do fundo
    Toda a nave cavalga
    ( Como no espaço os astros)
    Do princípio do mundo
    até ao fim do mundo.

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  5. Repito (em nome de cada um):

    Estimulemos a criatividade, a autoconfiança, a capacidade de experimentar! A crítica…edificante! O debate à sua volta!
    Concedamos o direito do estímulo! Sejamos capazes de motivar!

    Concluo (em nome da humanidade, que por vezes navega, por vezes cavalga...):

    De Mário Cesariny

    « RADIOGRAMA

    Alegre triste meigo feroz bêbedo
    lúcido
    no meio do mar

    Claro obscuro novo velhíssimo obsceno
    puro
    no meio do mar

    Nado-morto às quatro morto a nada às cinco
    encontrado perdido
    no meio do mar
    no meio do mar »

    Alzira Lima

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