“Georges! anda ver o meu país de Marinheiros..."Olha!...
"...
Lá sai a derradeira!
Ainda agarra as que vão na dianteira, ...
Como ela corre! com que força o Vento a impele..."
Diante de mim está o mar, e ele (com António Nobre) pega-me no espírito e leva-o até a poesia das páginas bíblicas…
- “Fez Deu o firmamento, e dividiu as águas, que estavam por baixo do firmamento, das que estavam por cima do firmamento. E assim se fez”.
- Disse também Deus: "As águas que estão debaixo do céu, ajuntem-se num mesmo lugar, e o elemento árido apareça. E assim se fez”.
- “E chamou Deus ao elemento árido Terra, e ao agregado das águas Mares. E viu Deus que isto era bem”.
- E Deus, após criar o homem e a mulher, os abençoou e disse: “Crescei e multiplicai-vos e enchei a terra, e sujeitai-a, sobre os peixes do mar, e sobre as aves do céu, e sobre todos os animais que se movem na Terra”.
(Génesis).
É estupendamente admirável como a simpleza da linguagem bíblica se adapta a todas as verdades!
O homem lançou ao mar a madeira, e lá veio o domínio sobre os peixes, domínio simbólico e real.
E hoje o homem já domina as aves do céu!
Pois que são os aviões senão “aves grandes” com que o homem venceu as demais?
Atraído o cogitar para este "feiticeiro" azul que é o oceano, aqui defronte, estava fugindo ao tema obrigatório - a língua portuguesa.
Fugindo não, porque o mar, se é poliglota, uma das línguas que ele fala melhor é a nossa.
Não ouviu ele os Portugueses praguejando contra as violências da sua fúria?
Cousas do mar, que os homens não entendem,
Súbitas trovoadas temerosas,
Relâmpados, que o ar em fogo acendem,
Negros chuveiros, noites tenebrosas,
Bramidos de trovões, que o mundo fendem.
(Lusíadas, V, 16).
Tudo isto ficou para sempre cantado, sublimemente, por Camões na língua de Portugal.
A própria bonança, em pós da tempestade, espalhou-se em versos como estes, de belo contraste marítimo:
Despois de procelosa tempestade,
Nocturna sombra e sibilante vento,
Traz a manhã serena claridade,

Esperança de porto e salvamento…
(Lusíadas, IV, 1).
A língua de Portugal está molhadinha até aos ossos pelas águas marítimas…
Se há verbo fluido, esse é Português - "Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”.
Ora Portugal andou com o oceano… a língua portuguesa não podia ter a aridez de uma língua interior.
E assim. a nossa língua está cheiinha de locuções marítimas, em que as fainas por sobre o elemento líquido deixaram sua marca:
- “Mar de lágrimas, mar de gente, mar de infortúnios..."
- “Se queres aprender a orar, entra no mar..."
Comparações, imagens, figuras de vária sorte rompem forçosas as contemplações das águas.
"Fundo como o mar"... até a grandeza abissal vai ao mar buscar comparança.
Ó mar alto, ó mar alto,
Ó mar alto sem ter fundo.
Mais vale andar no mar alto
Do que nas bocas do mundo.
Note-se que não é só no campo das figurações prosaicas ou poéticas, por vezes coincidentes com as de outras línguas oceânicas, que a nossa expressão de maritima.
Temos numerosos vocábulos portuguesíssimos com feição marítima - v.g. marulho, maré, marear, mareiro, marejado, maresia, maroto, marotear, mariola, etc., etc.
Esgueiro-me da ideia aliciante de seriar frases, provérbios e versalhada onde as águas marítimas marcam sua presença.
Quero dar à minha meditação a indisciplina das ondas que estão brincando umas com as outras...
Correm, avolumam-se, e vão, esfalfadas da carreira, extinguir-se no deslize final sobre a areia, levemente espumada.
Sucedem-se, e mal se lhes lobriga razão unitiva!
Pois agora me veio salpicar a mente esta onda irritantemente filológica:
"O mar é macho em português!"
E fêmea em espanhol, em francês, em inglês (frequentemente na poesia), em alemão (quando se emprega Die See).
À parte o italiano, vê-se, pois, que as línguas cultas feminizaram o mar.
Mas, no português, o mar é "macho"!...
A força desse gigante, a sua tamanhez em relação ao elemento sólido, a Terra; a sua agilidade e violência bravíssima, que se espuma de raiva, o rugido nas crises procelosas, e até a calma capciosa, em contraste com o nervosismo feminino; tudo nos figura o ajustamento da palavra “mar” à masculinização.
Ainda a nossa língua estava indecisa, e já a palavra “mar” surgia predominantemente masculina, embora “praia-mar” e “baixa-mar” sejam provas de que esteve para ser "menina" o mar português.
O nosso Poeta máximo, deixou talvez explicada a razão de mar ser apropriadamente masculino:
Não é, disse Veloso, cousa justa
Tratar branduras em tanta aspereza,
Que o trabalho do mar, que tanto custa,
Não sofre amores, nem delicadeza.
(Lusíadas, VI, 41)
Como se vê, os jeitos masculinos do gigante líquido (jeitos que os Portugueses em suas andanças por sobre as águas tão bem conhecem) são incompatíveis com a feminilidade.
Os poetas são homens que não apenas sofrem beleza, mas a conseguem traduzir.
E eles encontram com que e como dizer o que a magnitude líquida inspira.
A gente portuguesa, quebrantando vedados términos, ousou
“…....... ver os segredos escondidos
Da natureza e do húmido elemento”
como lhes chamou Camões (Lusíadas, V, 42).
Séculos depois, um outro Poeta de Portugal, Fernando Pessoa, haveria de recordar, exclamando ao mar português:
Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó Mar!...
Mas onde quero chegar é a isto:
- se o próprio mar se entregou ao homem, dando-lhe peixinhos e peixões das suas entranhas, para que diabo tomaram os homens dos peixes o exemplo de comezaina recíproca?
Sim, porque é que nos havemos de comer uns aos outros, em vez de nos amarmos?
.......
Estoutra onda que me ia molhando, trouxe-me mais umas tantas salpicadelas...
Parece que a onda quis dizer-me - Mas isso é língua portuguesa?
Peço desculpa.
Reconheço que estas minhas palavras, escritas à beira-mar, foram um pouco rolantes e sobrerrolantes...
Talvez influência das ondas que estive olhando…
É que o meditar à beira do oceano concede irrequietude imaginosa!...
".....
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes,
"Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!"
(Fernando Pessoa)
... Vê, Georges, como é lindo
“... O meu país das Naus, de esquadras e de frotas!"
Carlos Fiúza





































